A matemática do ébrio

Ele usa chapéu de vaqueiro e a barba lhe ocupa mais da metade do rosto. Veste casaco camuflado do estilo exército, bermuda cor-de-abóbora e chinelo de dedo. Não separando o amanhã do hoje, parece ter atravessado a noite aos goles. Com andar trôpego e lento, ele vem em minha direção. Viro o rosto, disfarço e tento planejar na mente algum tipo de desculpa: “meu amigo, hoje saí de casa sem dinheiro, foi mal.” O homem começa a falar e me provoca dores na consciência. Não, nem tudo é dinheiro. O que ele quer é me propor um desafio, um desafio intelectual. Sem cerimônia, dispara: “Quanto é metade de dois mais dois?” Meu cérebro por volta das sete da manhã ainda não admite maiores raciocínios que admitam maliciosas alternativas. Tasco logo um “dois!” O homem sorri vitorioso, balançando a cabeça negativamente. Em seguida, oferece ajuda feito o professor que anseia pela evolução do aluno inepto: “Quanto é metade de dois?” “Um”, respondo. “Mais dois?”, facilita o homem. O cérebro pega no tranco e eu acerto: “Três”. O homem comemora meu desempenho. Sente-se dotado de sabedoria farta, tão farta que é admissível sua distribuição aos parvos que se espalham pelo caminho. Ao se afastar, comenta às gargalhadas: “Tá vendo como vou me dar bem no Natal!?”