Cantando na fila

Engraçado como as reações são as mesmas. Quem vai chegando por último não consegue disfarçar a decepção, afinal pela frente há uma fila que dá voltas. O tempo até chegar ao guichê tem gosto de desperdício. Enquanto o avanço segue lento, quase imperceptível, uma voz se levanta, a mulher canta sem inibição, o que ela quer é arregimentar audiências. Ao longo da fila, as pessoas a princípio se entreolham zombeteiras, mas a voz vai se prolongando desafinada, insiste em entoar músicas de letras ininteligíveis, e agora é o incômodo que se propaga por todos os semblantes. Já quase meia hora de cantos ininterruptos, é a vez dela, enquanto compra a passagem, não descuida da apresentação naquele que é seu palco alucinado. O vigor é notório, todos reconhecem naquela garganta uma disposição que vai longe. O fôlego ainda haverá de perdurar pelas três horas de viagem.