Dia de cidade grande

Logo bem cedo a padaria Triunfal é palco de agitada movimentação. Os sonolentos clientes estão sentados em banquinhos giratórios que se estendem à frente de um balcão repleto de xícaras e pães recheados com manteiga farta. O perfume do café torrado se difunde por todos os cantos do ambiente até chegar à saída, exatamente ali onde um homem, sozinho, gesticula e fala alto. Fosse em outra época era o bastante para que o julgassem louco, mas nos tempos atuais é bem natural que as pessoas sejam vistas a conversar animadamente por aí sem que necessariamente haja algum interlocutor por perto, e isso pelo simples fato de que foi inventado o telefone celular. Repentinamente, o homem se lança em direção à rua, ainda limpando os lábios com um guardanapo de papel. Seus passos acelerados desafiam os carros que avançam pela avenida. Já do outro lado, um dos braços se estende e se agita, e o que se ouve é um ruído agudo, longo e angustiante, anunciando os freios de um ônibus que para agressivamente. Sem desgrudar o celular da orelha e parecendo temer que o ônibus arranque sem o deixar entrar, o homem sobe apressado por uma porta, enquanto lá pela outra porta do ônibus desce uma mulher. Dos altos degraus até o chão, ela aterrissa seus sapatos de enormes saltos com inacreditável destreza, a mesma destreza com que passa a caminhar, exibindo pela calçada o equilíbrio de conduzir os pés tão espichados. Em uma das mãos segura uma bolsa e na outra um livro que ainda não está na bolsa provavelmente pela falta de tempo de ter sido guardado. É possível enxergar que na capa do livro está escrito “L. Tolstói”. Não seria devedor quem apostasse que as viagens diárias daquela mulher são longas. Mais adiante, Tolstói se faz muito útil, e não pela edificação que suas letras proporcionam, mas pela contusão provocada pela capa dura do livro aplicada no meio da testa do assaltante que havia erguido uma faca contra a mulher de saltos gigantescos. A mulher grita assustada. Os curiosos se aglomeram. Em seguida, dois policiais conduzem o sujeito ainda cambaleante que talvez tenha aprendido a lição de não se meter com a literatura de peso. Uma senhora simpática e muito rechonchuda esforça a visão para compreender o que se passa. Ela direciona seu olhar de incompreensão aos que estão ao seu lado e questiona o motivo da confusão. Nessas horas aqueles que assistem a qualquer cena inusitada costumam se gabar de suas condições privilegiadas de testemunha, sentindo-se orgulhosos em contar com detalhes como ocorreram os fatos, afinal são donos da lembrança do que só eles viram. Devidamente informada, a senhora se afasta do tumulto com os passos curtos que suas pernas debilitadas lhe permitem dar. Sinal vermelho para os carros e sinal verde para os pedestres. É a vez de várias pessoas atravessarem de um lado para o outro aproveitando o domínio temporário do território disputado com os veículos. Entre elas está a senhora rechonchuda que, quando quase ao final da faixa de pedestres, olha para o lado e avista um carro de cor vermelha escura, quase vinho, dentro do qual está uma mulher que ajeita seus cabelos loiros através do espelho retrovisor. Os sinais se invertem, brilhando a luz verde para os motoristas que se agitam tal como pilotos de corrida posicionados na largada. O carro não responde aos comandos da loira. Um, dois, três segundos para que a primeira buzina se manifeste enlouquecidamente, seguida de outras tantas igualmente alucinadas.  Atrás do carro vermelho já se forma uma sequência de carros e ônibus de cujos escapamentos é expelida a fumaça que denuncia fúria por causa do fluxo interrompido. Com ar de quem a confiança foi traída, a loira exibe no rosto um filete de suor que desce vagarosamente até espocar na manga da blusa, formando uma pequena mancha quase perfeitamente redonda que logo é acompanhada por outra mancha mais espalhada e menos redonda, formada a partir de outra corrente de suor paralela à primeira. O som das buzinas compõe uma orquestra do caos, chamando a atenção de um mendigo vestido em seus andrajos. Ele apenas observa vagamente a origem daquele barulho, pondo-se a seguir seu caminho aos tropeços, em uma espécie de dança própria, alheio a todos que o consideram um obstáculo do qual a multidão precisa desviar. Um dos braços envolve contra o peito uma lata de alumínio daquelas que um dia serviu para guardar leite em pó. A mão se projeta a esmo na captura de moedas. Algumas, bem poucas, passam da mão para a lata, tilintando com outras que já estão lá dentro. O mendigo balança a cabeça negativamente como quem não se vê satisfeito com suas economias, entra num bar, despeja algumas moedas sobre a vitrine de salgados gordurosos. Recebe em troca um copinho de líquido transparente que não demora a ser tragado. Ao sair, o mendigo avista no chão um chapéu virado, no qual sem hesitar despeja as moedas que ainda restavam na lata. O artista de rua que se faz de estátua percebe o gesto, mostra-se comovido e ensaia algum tipo de agradecimento, mas se contém imediatamente. É preciso manter o profissionalismo, pois o seu mérito está justamente em sustentar a inamovibilidade, custe o que custar. Uma garotinha aponta o dedo em direção à estátua viva, na intenção de mostrar o fato curioso à moça que a acompanha. A moça corresponde ao sinal da garotinha e por alguns momentos também passa a contemplar o desempenho de paciência estática. As duas dão meia volta e passam a caminhar lentamente de mãos dadas, travando um diálogo descontraído. De baixo para cima, respeito; de cima para baixo, atenção, e pelas duas vias vai um carinho evidente, permitindo arriscar que são mãe e filha. Elas voltam a parar, agora em frente a uma barraca de doces. A garotinha ganha um chocolate. O vendedor enfia o dinheiro no bolso da bermuda ao mesmo tempo em que, aos berros, anuncia promoções do estilo “três pelo preço de dois”, “cinco pelo preço de três”. É de se reconhecer que ninguém fica indiferente ao apelo auditivo da propaganda. Muitas pessoas que passam se irritam com a gritaria, outros tentam negociar o preço e alguns demonstram desdém pela mercadoria exposta. A esses últimos o vendedor oferece seus argumentos sobre a boa qualidade dos seus produtos. Em uma dessas explanações, um homem de terno escuro é persuadido a levar pé-de-moleque, cocada e brigadeiro. “Três pelo preço de dois”. Tudo é devidamente embalado e posto dentro de um pacote que é entregue juntamente com o troco. O homem se retira já experimentando o brigadeiro, caminha um bom trecho até parar atrás de um jovem de boné e óculos escuros abanando-se com uma pasta transparente. Na frente do jovem está parada outra pessoa que também está atrás de outra pessoa e assim por diante. A fila é muito comprida, daquelas que contornam o quarteirão, e exatamente por isso não se vê onde ela vai dar. Aí está uma oportunidade interessante de examinar como as pessoas aproveitam o tempo. Há aqueles que se valem da oportunidade para se informar ou se instruir. Nessa categoria estão um senhor distraído com o jornal aberto e uma jovem entretida com a revista dobrada em uma das mãos. Há os que não escondem a ansiedade, como o próprio homem de terno escuro, ainda último da fila, que se ocupa em olhar o relógio e em conferir, repetidamente, se os que estão à frente esboçam algum movimento. Há os que apenas esperam, olhando fixamente para o chão ou para o que acontece ao redor. Há aqueles de espírito comunitário que puxam assunto com quem está por perto. Logicamente lá também estão eles, os telefones celulares a preencher o tempo de espera de vários componentes da fila. O sol vai se despedindo. As pessoas passam a percorrer o caminho inverso, de volta para os seus refúgios. O operário de macacão azulado carrega no rosto o semblante de cansaço de quem teve a energia sugada pelo trabalho. Por outro lado é perceptível certo alívio pelo dever cumprido, pela vitória de completar a missão que se repete diariamente.          

Dois meninos sorridentes de uniforme escolar e mochilas nas costas se aproximam de mim. Continuam sorrindo. Perguntam-me “que horas são?”. Não tenho relógio. Mesmo assim agradecem. Eles se distanciam até que meus olhos não possam mais avistá-los. É mais um dia que se vai, um dos vários que eu já vivi.  Apesar de ser o dia de hoje, o que eu vi poderia ter acontecido ontem ou acontecerá amanhã. Daqui a cinquenta ou cem anos estará para trás, esquecido juntamente com os outros tantos que já terão passado, quase como se não tivesse existido, mas existiu e agora a sua existência está registrada, servindo a quem se interessar a aprender que se vive um dia de cada vez.

Um velho de boina bege está sentado no banco da praça, na companhia de uma bengala encostada na quina do banco e de um caderno. Há quem diga que o velho passa seus dias escrevendo sempre no mesmo banco. Talvez escreva sobre o que vê. Talvez escreva sobre o que pensa. Não sei ao certo. Ele levanta devagar, apoia-se com a ajuda da bengala e recolhe seu caderno. Entra na padaria e pede um café. Eu lhe entrego a última xícara de café que a padaria Triunfal serviu no dia de hoje.