Entre luzes vermelhas, amarelas e cor de abóbora

Ao lado de i pads, i pods e smartphones, outro símbolo da sociedade contemporânea são as praças de alimentação.

As praças já foram do condor e do povo. Hoje recebem a estranha alcunha de praças de alimentação. O cenário parece ser sempre o mesmo: cadeiras e mesas padronizadas muito perto uma das outras formam uma ilha envolta por restaurantes e lanchonetes do estilo fast food de onde saem bandejas de comida preparada a toque de caixa. Há por toda parte letreiros coloridos, prevalecendo os tons em vermelho, amarelo e cor-de-abóbora.  Aliás, ouso dizer – só por palpite – que há por trás da combinação dessas três cores algum estudo conclusivo sobre a maior capacidade de atrair a atenção do consumidor faminto.

Por ali se propaga uma forma sonora muito particular. A mistura de vozes provoca um burburinho poderoso e incessante que não admite sotaques. Nos shoppings cariocas, paulistas, maranhenses, o burburinho é sempre o mesmo, talvez com alguma variação de volume em decorrência da acústica local.

O menino se opõe à aproximação do garfo que sua mãe pacientemente ostenta no ar. Faz pirraça, chora, balança a cabeça, mas depois de algum tempo recolhe do prato uma batata frita, colocando-a na boca sorrateiramente. Uma família abandona a mesa. A zelosa funcionária retira os entulhos alimentícios com velocidade de mecânico de fórmula um. Tão logo pronta, e a mesa  passa a ser ocupada por outra família, que não consegue achar espaço para acomodar as compras. As pessoas desacompanhadas comem depressa, mantêm  as cabeças baixas, querem terminar a refeição o quanto antes.

Quem se dispuser a observar o que acontece em volta talvez seja o único a fazê-lo, e por isso passará despercebido como se estivesse invisível. O exercício da contemplação combina melhor com outra praça, a praça do condor, a praça do povo.