Momento único

Ela completa trinta e seis anos, dois meses e três dias. Mais exatamente três dias e meio. Ele é mais novo. Tem vinte e nove anos, dez meses e treze dias. Mais exatamente treze dias e duas horas. Ambos poderiam comemorar uma espécie de aniversário corriqueiro, que se mede pelo espaço de minutos, horas ou dias.

Eles estão prestes a dividir um momento único.

Se ela acordasse um segundo mais cedo ou um segundo mais tarde, se não diminuísse o passo para examinar o preço de um sapato exposto na vitrine da loja, se escolhesse deixar os cabelos soltos, ou se ele resolvesse sua dúvida escolhendo os sapatos negros e não os marrons, se ele tivesse a atenção atraída por uma notícia pendurada na banca de jornal, se ele andasse a uma velocidade um pouco menor ou um pouco maior que seja, o modo como se encontrariam seria completamente diferente. Ou talvez nem sequer teriam se encontrado.

Dividiram um momento único que, do jeito como foi, nunca mais irá se repetir. Será impossível refazer a peculiaridade dos gestos, o mesmo tom de voz, a sequência de palavras escolhida, a maneira como os olhares se encontravam e se desviavam alternadamente. O tempo em que se encontraram terminou. Ele ergue a bolsa enquanto guarda o troco na bolsa da calça. Ela lança sua voz ao ar: “próximo”.