O homem é bicho de não ser só (em versos)

Sertão
Tão ermo
Enfadonho
Abandonado
Lá Cabral era esperado
Parecia que o tempo não passava ou nem sequer existia
Só se notava que existia e passava
Pela escuridão da noite que rendia o claro do dia
Rei mesmo era o sol
Esturricava tudo
Nem nuvem deixava passar
Não tinha culpa
Nasceu quente
Não queira que pudesse refrescar

Mas o homem é bicho teimoso

Brota até em solo pedregoso
Uma dupla apareceu
Só calango como testemunha
Sem nomenclatura, Alto e Baixo lhe serviam de alcunha
Era vida de viver só por viver
O melhor sentido que a vida devia ter
O vento, ligeiro, conseguia circular
Por falta de aparência não precisava se mostrar
Em redemoinho, trouxe foto do mar
O Baixo pegou a coisa e se pôs a sorrir
Gritou: “pra lá que quero ir”
Nem aceno de despedida
O Alto deu de ombros
Sobraria mais comida

Mas o homem é bicho de não ser só

O tempo passou
Tudo mudou
Só a consciência pra prosear
Nem com quem do calor reclamar
Tristeza esquisita
Sabia bem a razão
Tombou no chão
Espirrava lágrimas em profusão
Pois solidão não se aguenta sem chorar
No litoral o Baixo era pessoa mudada
Flertava com o deslumbre
Sorvia do coco água adocicada

Mas o homem é bicho inquieto

Na praia tropeçou
A risada se espalhou
Rubor
Humilhação
Brado de irritação
“Que malícia é essa de meus pés afundar?”
“No sertão pisava firme no chão”
Recordação
Comparação
Dum lado areia mole e de cor aguada
Doutro a terra dura, quase avermelhada
Relembrar é querer a saudade chamar
É o que dizem: o mar causa enjoo
E o Baixo enjoou do mar
O sol se punha
Até quem manda merece descansar
Céu amarelado
O Alto viu a figura do Baixo se aproximar
Abraço com aperto forte
Deu nó em garganta de calango curioso
Voltou-se a tempo idoso

Mas o homem é bicho rancoroso

Dizer que tudo era como antes
É dar conclusão rasa a assunto custoso
Algo reclamava ajuste rigoroso
Voz interior atiçava lide
Cobrava postura de revide
Sentença pronta e acabada
O Alto partiu sem previsão de parada
Cada qual que pague pelo mal que causou
Deixou pra trás o Baixo
Pra experimentar dor de solidão que provocou
Passo acelerado
Chutava pedra atrevida à sua frente
Percorreu trilho alongado
Segunda voz com recado urgente
“Se o Baixo inaugurou solidão por condenação”
“O Alto ia para a segunda vez por falta de perdão”
Dos rasgos do terreno saltava pó
Um dilema precisava solucionar
Parou
Fez menção de se virar

Porque o homem sempre será bicho de não ser só