O largo e a carioca

Quem, por ousadia, interrompa a marcha maquinal já peculiar aos que percorrem o Largo da Carioca, pode ser surpreendido com aquilo que se pode chamar de feira de apresentações artísticas. Nela são exibidas desde paisagens pintadas em azulejos até a execução do samba de raiz que flutua docemente sobre a campana de um rústico saxofone.

Numa dessas ocasiões em que o pragmatismo da rotina é vencido pela distração inocente, Manuela lançou o olhar para a inusitada cena que, a partir dali, povoaria o seu rol de histórias a contar. Não se sabe se por estratégia cênica, era bem ao centro do Largo da Carioca onde se destacava a figura de um homem, com braços estendidos e semblante direcionado aos céus. Apesar de idoso, transmitia aparência vigorosa. A precariedade de seu paletó azul marinho e da calça de cetim não impedia um certo ar de elegância. Seu rosto era quase todo encoberto por uma barba cinzenta cujos pelos mergulhavam da pele aos tufos. Desinibido, exercia oratória contundente em seu particular auditório cercado pela convivência entre construções antigas e edifícios modernos, os quais, juntos, compunham o cenário cujo tema bem poderia ser a evolução histórica da cidade. Qual não foi, então, o encantamento experimentado por Manuela ao identificar, naquele recital quase delirante, a reprodução impecável de versos cunhados por Castro Alves, Drummond, Vinicius de Moraes e talvez mais outros poetas que ela não reconhecia. Manuela era contadora, mas sua intimidade com os números não ofuscava a imensa afeição pelas palavras, e, por isso, aquela apresentação, pela qual se conjugavam loucura e erudição, indigência e cultura, talento e ingenuidade, parecia-lhe tão especialmente romântica.

Foi assim que Manuela passou a recortar dois ou três minutos de seu hábito diário, de modo a assistir ao espetáculo mambembe apresentado pelo ancião, que, de braços abertos, atuava como quem pretendesse a redenção cultural dos transeuntes que o viam mas não o enxergavam. Os poemas proclamados eram de uma tal diversidade, a ponto de não serem repetidos. Manuela achou por bem depositar, com certa frequência, generosa quantia em dinheiro no chapéu virado que jazia ao lado da apresentação. Fazia isso menos por caridade e mais por recompensa. Travestiu-se de mecenas não exatamente pela razão egoísta de atender à satisfação pessoal. Também havia um sentido de preservação do que poderia alcançar outras pessoas que compartilhassem da mesma sensação de deleite. Inúmeros dias. Várias semanas. Alguns meses. O trajeto obrigatório de Manuela, que seguia da Rua da Carioca até a Avenida Rio Branco, tinha como ponto reluzente o Largo da Carioca.

Em um determinado início de semana, o Rio de Janeiro recebeu a inesperada visita de uma gigantesca nuvem a espalhar pela cidade uma chuva que de tão fina se desmanchava antes mesmo de tocar o chão. Manuela, munida de sua sombrinha não tão resistente ao vento, afastou do rosto os óculos embaçados, e logo amenizou a frustração de não perceber, no local de costume, a presença do até então assíduo artista, supondo se tratar de um forçoso intervalo imposto pelo mau tempo.

A nebulosidade se despediu. Sentia-se a força de um sol revigorado. Nem por isso o velho orador foi visto novamente. Manuela admitiu que a profusão de poesias, tão continuadamente incorporada às suas manhãs, só sobreviveria no exercício da lembrança. Lamentou-se e abateu-se. Foi dominada por um pesar que a sua racionalidade julgava ser desproporcional, e assim questionava a causa pela qual teria se deixado abalar com uma ausência que normalmente teria menor relevância. Talvez tivesse traçado algum paralelo com a imagem de seu pai, professor de ginásio que havia morrido há dez anos. Talvez a eloquência que ditava versos teria adicionado cores vivas à coloração desbotada que formava o arco-íris da sua vida. Talvez a força da arte, mesmo através de uma expressão tão singela, teria a envolvido com um daqueles efeitos irresistíveis, cujo primeiro contato provoca o desejo de repetição indefinidamente contínua. Enfim, a resignação está de tal maneira atrelada ao passar do tempo que Manuela acostumou-se à desfiguração de sua paisagem. E foi o tempo que se encarregou de arrastar para longe as formulações aflitivas que se distanciaram da mesma forma em que o viajante avista, gradativamente diminuído, o aceno de quem dele se despediu.

Certa vez, Manuela interrompeu a atenção que dispensava aos desenhos insensatos que se formavam conforme avançava o arranjo das pedras da calçada, e caminhou sem pressa até a parte central do Largo da Carioca. Retirou as mãos do bolso da calça, suspendendo-as até que os braços estivessem estendidos. Desafiando a luminosidade, encarou brevemente o firmamento. Sorriu de si e seguiu para mais um dia de trabalho.