O que brota no meio da música

Quando entrou no salão, não imaginava que o aperto no peito a desconcertasse tanto. Já fazia muito tempo. Depois de décadas, o lugar agora parecia menor, é como se as paredes tivessem dado passos para frente. Olhou apressada para o canto onde ela e as amigas gostavam de ficar, chegavam cedo para conquistar território, chegavam quando ainda não havia quase ninguém. E era exatamente só naquele canto que agora uma montanha de entulho se acumulava. Ela gostava de chegar cedo também porque era no início, sempre no início, que tocava a sua música favorita. Jump they say, do David Bowie, era um privilégio para os adiantados. Ouvia a música alta, fechava os olhos e dançava em hipnose. Durante a semana, esperava ansiosa por aquela noite que era o intervalo entre o tédio do domingo e as preocupações da segunda. As preocupações daquela época eram tão ingênuas! Só não ia, e isso com grande pesar, nas semanas de prova. No alto já não há vestígio do equipamento de luz que testemunhava olhares furtivos, cochichos, conversas de fazer o coração palpitar. Não tem mais contato com aquelas amigas, saudade delas, cada qual seguiu um rumo na vida, certa vez soube por alto que uma delas inclusive havia morrido. O que vê à frente é decadência de navio naufragado. É triste estar ali sem as músicas, sem as amigas, sem a juventude da época, a sensação é a de que ela, ali parada e sozinha, tenha ficado para trás. O silêncio e a poeira querem dizer que tudo passou, a cada dia está mais longe e desbotado. Mas às vezes ainda resta um recurso, toda vez que ouve Jump they say, ali no meio da música as memórias resistem, se achegam e ganham algum colorido.