O sorriso de Mona Lisa

Suspeita-se que os ossos da Mona Lisa tenham sido encontrados. Foi o que eu li em algum link suspenso na abstração da grande rede e que talvez só não tenha sido clicado, porque a setinha comandada pelo rato de rabo em forma de fio preferiu se aventurar em alguma outra notícia, que, por sua vez, se subdividiu em várias outras notícias, fazendo com que a visita virtual perdesse o caminho de volta. Mas mesmo a pequena frase que convidava a um clique não efetuado foi suficiente para estimular reflexões etéreas e expansivas.

Mona Lisa (ou La Gioconda, como queira) já deixou de existir há séculos. Sua pele se desmanchou sob a terra, sua boca se desfez, restando-lhe somente os ossos, cuja resistência inerente ao material de que é feito garante o testemunho de que, sim, nossos ancestrais mais remotos realmente estiveram por aqui. Todavia, não são os ossos que lhe garantem a imortalidade, mas, sim, o sorriso.

O sorriso mais enigmático de que se tem notícia foi congelado no tempo e, certamente, para a surpresa da própria Mona Lisa, provoca a veneração contemporânea representada por olhares atentos e flashes orientais. Mas, se o sorriso em questão é enigmático, assim também o é todo o conjunto de circunstâncias que o cercam e que foram definitivamente engolidos pela passagem impiedosa do tempo. Assim, o que terá feito Mona Lisa imediatamente após ter posado para os últimos traços de tinta que a retrataram perenemente? Como terá sido a reação de Leonardo Da Vinci após ter terminado sua obra-prima? Comemorou? Deu de ombros julgando tratar-se de mais um entre tantos outros trabalhos sem tanta importância? E o jeito como pintou o tão famoso sorriso? Utilizou-se de alguma técnica especial, para que tenha sido proposital a construção de um sorriso enigmático ou simplesmente pintou sem imaginar que a maneira como suas pinceladas davam forma ao sorriso causaria tanta repercussão?


Tudo isso ficou para trás e só pode ser reproduzido através do exercício imaginativo. Permanente mesmo só o sorriso de Mona Lisa, que ainda perdurará, enquanto tantos outros ossos se empilham sob a terra.