O uniforme do herói

Descer a escada rolante do shopping é tarefa das menos marcantes. Ninguém, quando entregar a cabeça ao travesseiro e conferir o saldo do dia, terá lembrança do exato instante em que descia a escada rolante de um shopping. A não ser que lá embaixo desponte o zelador tomado pela agitação de quem enfrenta a urgência. Num gesto rápido, lança mão da habilidade de perito e aciona o mecanismo que imediatamente para a subida dos degraus. Só depois percebo que ao meu lado, na escada de subida, dois idosos estão caídos. Como terá sido isso? Uma senhora tem o corpo enviesado entre os degraus, um senhor está logo atrás. Impressiona que os dois mantenham tanta calma. Não se debatem, não gritam por socorro, estão deitados com olhares direcionados para cima como se descansassem numa cama. O bombeiro, a moça da loja de doces, o rapaz da perna tatuada, logo se amontoa muita gente ao redor dos dois. Durante o resgate, ambos permanecem serenos embora haja dificuldade de se porem novamente em pé. Ali está a comovente resignação que só vem com o tempo.  

Já aos pés da escada e ainda estranhando ter presenciado tamanha eficiência, chego perto do zelador e lhe digo que sem ele tudo seria pior. Sem abandonar a modéstia, ele diz que as serras no topo da escada rolante poderiam ter ferido gravemente os dois idosos. Reparo no uniforme que exibe o emblema do shopping e me despeço dando-lhe parabéns, ao que o zelador agradece encabulado. Mais à frente me deparo com o cartaz do cinema. Dois super-heróis estão vestidos com capas, roupas coloridas e máscaras. De imediato o que me vem ao pensamento é que nossos heróis, heróis de verdade, usam uniformes discretos.