Poética da mendicância

Normalmente o cenário em que se amontoam alguns mendigos de uma cidade é visto como paisagem triste porém merecedora de, no mínimo, dois segundos da atenção que logo se evapora. Assim é que a miséria exposta nos cantos das praças e ruas é ignorada ou, em outra perspectiva, tida como parte componente da sorte que a cada um cabe.

Na obra “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam”, de Evandro Affonso Ferreira, a um mendigo é concedida voz e a partir disso o mundo desses miseráveis destaca-se e recebe uma rajada de luz que os retira, pelo menos durante o período de cento e vinte e sete páginas, de sua insignificância. Diferente do que possa parecer, há sentimento e história em cada ser maltrapilho que se arrasta por entre as pessoas que não o enxergam ou que o desprezam ou que o temem.

Eis uma obra de arte em que o mendigo-narrador, abusando de raciocínios líricos, dramáticos e encantadores, demonstra que mesmo aos menos afortunados é permitido o direito de amar com sofisticação.