Que Castro Alves nos ajude a ter palavras

Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, Se eu deliro... ou se é verdade, tanto horror perante os céus!? Ó mar, por que não apagas co'a esponja de tuas vagas, do teu manto este borrão?

Nosso baiano Castro Alves assim se referia aos navios negreiros, a tragédia que vinha pelos mares. Depois de tanto tempo, são versos que cabem como luva para mais uma tragédia vinda do mar. Lá está o pequeno menino sírio, deitado, recém-trazido pelas ondas. Após conduzi-lo até a firmeza da terra, é como se o mar quisesse dizer “vejam só o que vocês fizeram.”

A humanidade produz mais uma cena daquelas que para todo e sempre nos servirá de assombração. É o caso de se lembrar de outros retratos cruéis. A menina vietnamita que corre queimada e assustada, ou o menino africano, sem forças, esquálido, observado por urubus oportunistas. E agora mais uma fotografia-ícone: Aylan Kurdi, vestido em suas encharcadas roupinhas de garoto, jaz com o rostinho enterrado na areia úmida. Todas essas fotos têm como mesmo componente o sacrifício de crianças. São elas as porta-vozes do tanto de miséria que ainda há em nós.

Que Castro Alves nos ajude a ter palavras: Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o bringue imundo, Mas é infâmia demais!... Da etérea plaga levantai-vos, heróis do Novo Mundo!