Se aqui há asas, quero voar

A catedral parece ter sido feita para o especial deleite dos notívagos. As luzes sobem pelas curvas das colunas e revelam mãos erguidas ao céu, mãos de concreto esperançosas por alguma graça que lhes caia entre os dedos afiados. Se meus olhos voassem longe, se eu tivesse olhos marinos já teria percebido antes que lá no alto as nuvens vêm preparando uma surpresa, brincam de se juntar ao redor da lua deixando que dela seja visto o formato de concha, o mesmo formato do parlamento cá embaixo. Os traços do arquiteto favorecem mesmo o desembaraço dos sentidos. Avante até o palácio, mas de repente o caminho se faz inacessível, deixa pra lá, o palácio é dos reis. Embora quase desaparecidas no escuro, as árvores fazem escolta, são sempre solícitas, desde sempre estão a preparar-se para aqueles que um dia as verão florescer. Em meio a monumentos adormecidos, o Itamaraty se exibe aceso. É a vez de vasculhar o que há por trás daquelas vidraças compridas. Como se acuado pelos olhos perscrutadores, o prédio se apaga. Os ministérios, um a um, vão se despedindo perfilados. As muitas letras que dão nome a eles são como créditos de um filme que está por terminar. E tudo ao redor é silêncio, o silêncio resguardado pela silhueta das sentinelas.

No alto da noite, a capital nem parece o palco da cizânia dos últimos dias. Ao amanhecer estará novamente às voltas com a agitação dos poderes. Mas não agora, não nesta noite. Brasília segue plácida pelo tempo de um sonho bom.