Streets of Philadelphia

Ela chega em casa e flagra a si mesma repetindo os mesmos gestos de sempre, é como se fosse um dia só, que se repete, se repete, o mesmo cansaço, o mesmo desânimo, as mesmas chaves atiradas sobre a mesa de vidro, é o mesmo barulho escandaloso, não encontra sentido, não enxerga saídas, mas ligar o rádio pode ser uma boa ideia, quando ouve música costuma se sentir um pouco melhor, músicas da rádio FM porque aí são músicas aleatórias, entre uma música e outra um fino lapso de expectativa, é o máximo de esperança que consegue ter, logo essa música, não, essa música não, ela é triste, hoje era a última música que ela queria ouvir, foi a trilha sonora de um filme em que o Tom Hanks, novinho, magrinho, morreu de AIDS, ela pensa, há pessoas sofrendo de AIDS, de câncer, de febre amarela e eu aqui com a minha falta de ânimo, é o tipo de comparação que não funciona, não funciona sentir-se culpada, ela ainda está mal, talvez pior, estava triste e agora está com a consciência em xeque, ela corre até o celular e o desliga, não aguenta mais a sensação idiota de esperar a vibração da mensagem que nunca chega, a vibração da ligação que há uma semana não irrompe e não a faz correr para atender, alô, tudo bem? Como foi o dia? O teclado dessa música é tão melancólico, soa tão depressivo, ela ainda não desligou o rádio porque ainda precisa ter coragem de enfrentar a merda de uma música triste, o telefone fixo toca, ela lamenta ter se esquecido de deixar fora do gancho, e se não for quem ela quer que seja, e se for quem ela quer que seja, ela se pergunta se deve atender, hesita, atende, não atende, avança, recua, e se o telefone nunca mais tocar, já tocou demais, está prestes a parar de tocar, ela atende, um engano.