Preservativo para a inconveniência

Xarope em promoção, aparador de cutículas, descongestionante nasal, odorizador de ambientes, balas de gengibre para a garganta, lixas de unha, álcool em gel e uma barriga.

Barriga espremida contra o balcão de vidro, o homem aponta para o varal de embalagens multicoloridas, quer informações pormenorizadas. De pronto, a atendente esclarece dúvidas sobre quantidade, preço e até sobre cheiros e sabores. O homem não está satisfeito, sua intenção agora é apalpar a mercadoria. As cartelas, então, são trazidas até o balcão. A atendente as espalha como se lidasse com peças de roupas. Não deixa escapar qualquer indício de constrangimento, o que, aliás, distingue o seu bom profissionalismo, mas o problema é que ela acumula a função de atendente com a de caixa, e isso quer dizer que a fila de pagamentos já se estende quase para além da saída.    
Indiferente ao comprimento da fila, o homem ainda não fez sua escolha, continua a tomar de assalto a atenção da atendente, ele examina medidas, concentra-se na leitura das especificações técnicas, repete perguntas, em especial sobre a quantidade, ao que parece quer deixar claro que costuma fazer uso constante do produto. As pessoas na fila começam a demonstrar suas impaciências, atravessam o grau de insatisfação em que olham com cara feia para diferentes pontos, como que pedindo providências.

Outra atendente, a responsável pelas receitas médicas, percebe a gravidade da situação e assume o caixa. Crédito, débito, via do cliente, a fila vai diminuindo até não restar quem tenha que pagar pelo que comprou. Enquanto retorna ao seu posto, a atendente das receitas médicas observa a cena em que o homem ainda se demora em investigações. Meio indignada, meio sarcástica, ela resmunga:

– Só falta ele querer experimentar.