O que vem de baixo me atinge

Ele está deitado no canto da calçada. Dos pés ao pescoço, tem o corpo caprichosamente enrolado por um cobertor cinza-asfalto – casulo de tecido surrado. Quem porventura abaixar os olhos na direção da única parte descoberta encontrará um semblante agressivo a querer dizer, debaixo para cima, “olhe, mas sem demora.”

Uma nota de dois reais vem de cima, pousa na altura da barriga, começa a dançar, se exibe oferecida. Ele se mantém imperturbável mesmo quando uma rajada de vento faz a nota escapar para onde os pneus dos carros a reduzem a papel imprestável.

É preciso dar testemunho: o homem ao rés do chão, como se fosse o tetraplégico a quem o olhar é uma das últimas formas de lidar com o mundo, não abandona a imobilidade, não se abala, nem por um instante aparenta querer capturar o dinheiro. Permanecer abrigado ao relento é mais valioso que isso.