O melhor amigo não sabe das leis

Se a multidão é um formigueiro, os escândalos são doces bem açucarados. Dois policiais abrem caminho entre curiosos, conduzem um homem, dividem a tarefa: o braço esquerdo para um, o direito para o outro, seguram firme que é pra evitar resistência, mas nem precisava tanto, afinal, além de algemado, o recém-capturado está notoriamente bêbado, tropeça nas próprias pernas, não conseguiria fugir nem de criança pequena. Dizem se tratar de um mendigo conhecido nas cercanias, costuma pernoitar sob a marquise de uma agência de banco, não há lugar mais seguro, e o mais que dizem só coincide quanto ao objeto do imbróglio, um celular. O homem teria desfalcado o mostruário de uma loja ou teria tomado o aparelho de uma moça distraída, as versões vão sendo remendadas conforme o gosto de quem repassa a informação.

Se descermos o enquadramento da cena ao nível das pernas, veremos um vira-lata que tem perseguido de perto a trajetória daquela diligência. Não sabe o que se passa, nem pretende entender, o que lhe cabe é seguir o dono. Quando o homem é posto na traseira do camburão, o cão não hesita e com um salto rápido e preciso também passa a ocupar a pequena cela prestes a se movimentar. Surpreendido, um dos policiais tenta demover o intruso, recebendo como resposta um rosnado e a exibição de dentes. A tampa do camburão vem abaixo, sirene ligada, ainda dá pra ver pelo vidro, lá dentro o homem mantém a cabeça baixa, talvez pelo arrependimento, talvez pelo efeito etílico, já o cão, sentado em pose altiva, não é criminoso, mas está onde acha que deve estar, vai se distanciando enquanto boceja com demora.