No Café Favorito - Parte 4


É dia de campanha eleitoral no Café Favorito. Biquinho na borda da xícara, ali está montada a tática de se juntarem candidato e cafezinho, deve haver por aí algum manual que garanta votação maciça a quem se debruçar na maior quantidade de balcões de padaria que conseguir. O ambiente já é estreito, tomado então de assalto por tantos correligionários aí é que agora não sobra espaço nem pra buscar a vasilha de açúcar. Xuxa não vê problema nisso, vai se misturando calmamente entre o aglomerado, ela logo identifica o cabeça da movimentação, vai até o candidato e lhe mostra o copo de plástico dentro do qual as moedas são sacudidas e tilintam como sinal de súplica. O candidato hesita, talvez não queira ser acusado de comprar votos, há de se tomar cuidado com os concorrentes à espreita, a alternativa é oferecer um café, o que, já sabemos, não é a melhor solução, Xuxa não é simpática a esse tipo de oferta, e a negativa sai sem cerimônia, ríspida feito recusa de criança pirracenta, instaura-se no ar certo constrangimento, a situação requer outro plano, o candidato já o tem, ele parte sorridente para o abraço, arrancando aplausos dos correligionários que de imediato passam a fotografar a cena. Encoberta e espremida pelos braços do candidato, Xuxa entra no clima e exibe uma gargalhada desdentada, não é comum que receba abraços por aí, convém aproveitar o afeto, seja qual for a natureza dele. Desfeito o abraço, o candidato saca do bolso um punhado de santinhos e o estende na direção de Xuxa, novo constrangimento, ela em vez de aceitar, contra-ataca com o copo de plástico. Se neste momento os correligionários também se pusessem a tirar fotografias, congelariam um duelo: os dois empunhando suas respectivas e desiguais pretensões.