O céu das lagartas deve ser verde


Altero a cadência dos passos para não pisar a lagarta, ela tem pressa, sabe onde tem que ir. Mais à frente me viro e o que eu temia está acontecendo, a lagarta se joga da calçada, se enrola, se estica novamente e agora ruma ao asfalto, ela é determinada, do outro lado da avenida há um canteiro com muitas plantas, o céu das lagartas deve ser verde. É a força do instinto, aquela travessia me faz lembrar salmões saltando contra a correnteza, fazem isso a despeito dos ursos e suas bocas arreganhadas, prontas para abocanhá-los. No caso da lagarta, os ursos são as rodas. Primeiro, ela sobrevive a uma bicicleta, parece ganhar confiança, aumenta a velocidade, traço rastejante e ligeiro, um terço da pista, o carro vem e passa longe, ufa, metade da pista, vem outro carro, passa sobre ela, mas os pneus não a acertam, ela escapa, o vento do carro a virou de cabeça pra baixo, ela é ágil em se desvirar e já está de volta ao trajeto. Vai, lagarta – penso em voz alta. Vem vindo aí uma sequência de carros, chego a torcer para que um pássaro a capture, ao menos morreria em prol do equilíbrio ecológico. Dois terços, lá vem o carro, monstro inclemente sobre rodas, o pneu dianteiro passa muito perto, pode ser que ela consiga, mas aí vem o pneu traseiro, ploft, o som de coisa esmagada me provoca susto, foi quase, quase mesmo, eu me cobro: poderia ter ajudado ou talvez ter seguido e não virado pra trás.