O mapa da África


Eles estão vestidos da mesma forma, mas, todos sabem, a juventude é hábil em burlar padrões. O garoto usa uma touca certamente inapropriada para o calor do meio-dia, uma das garotas tem a lateral da cabeça raspada, a outra garota combina o vermelho do aparelho com o vermelho da armação dos óculos. Os três carregam mochilas muito gordas, não há precisão se aquilo é só material escolar ou se ali dentro também estão guardados os sonhos de cada um deles. É coisa fácil de comprovar por aí: nas sextas-feiras os colegiais falam mais alto, os sorrisos saem soltos, às cambalhotas. O garoto de touca e a garota da cabeça raspada fazem um resumo descontraído da semana, debocham, riem, relembram peraltices, voltam a rir. Enquanto isso, a garota dos óculos de aro vermelho está em silêncio, mantém a concentração, examina o pilar que sustenta o telhado do ponto de ônibus. Ela é paciente, espera os outros dois se aquietarem para anunciar uma descoberta:

– Olha só, o mapa da África.

O garoto de touca e a garota da cabeça raspada não dão tanta bola, voltam ao assunto de antes e agora estão ainda mais efusivos. O ônibus vem chegando, a garota do óculos de aro vermelho faz sinal, se despede. Quando então restam só os dois, o garoto de touca e a garota da cabeça raspada vão depressa até o pilar de ferro, conferem com apuro o formato de uma mancha de ferrugem, um deles lança uma interrogação:

– Cara, como é que ela nota essas coisas?