Reginaldo, o hábil


Logo se vê que ela é intrusa, está num lugar que não a comporta. É daquelas carretas cujas dimensões impõem aviso na traseira – legenda que alerta, mas também enaltece, porque até as carretas devem ter o seu código de vanglória: “veículo longo, comprimento: 25m, largura: 3m.”

Ficou entalada depois de fazer a curva entre uma avenida e outra. Isso é que dá se enfiar em estreitezas. De fato esta é uma máquina que melhor se acomoda nas estradas. Desse jeito, metida nas ruelas da cidade, é tão inadequada quanto o passeio de um boi numa loja de cristais. Atenção: está para começar agora uma missão que desafia a Lei de Newton. Quem nos apresenta o motorista é o homem sentado no banco carona da carreta: “Reginaldo, tem que virar tudo pra esquerda”. Não bastasse alternar olhares pelos três retrovisores, controlar os pedais, engatar a marcha à ré, dar voltas rápidas no volante, Reginaldo acha jeito de ao mesmo tempo também relatar o aniversário da filha: “Chamei um churrasqueiro que assim ficava melhor aproveitar a festa.” Enquanto isso, o trânsito é um nó, os carros vão se amontoando em filas, e isso é propensão para que ela apareça, não demora e ela vem vindo aí.

A buzina, esse hino à impaciência, chega esbravejando, a primeira delas tem poder de contágio, basta irromper e aí as outras se encorajam, instaura-se orquestra estridente, que são aplausos às avessas. Todos estes aí que dão causa ao berreiro dos carros bem podiam sossegar e aproveitar para assistir a uma exibição de destreza. Carreta em “L”, cabine para um lado, carroceria pro outro, isso não parece fácil de coordenar. "A família é grande, mas não achei que fosse aparecer tanta gente, acabou faltando carne." Um pouco pra frente, um pouco pra trás, o freio a ar solta barulho infame a cada manobra, a visão periférica não descuida dos obstáculos adicionais: curiosos na calçada, poste próximo à avenida, fios elétricos, o motociclista que se aproveitou de uma brecha que a manobra abriu. “Não comprei muita cerveja não, festa pra criança você sabe como é...” Motor, amortecedores, eixos, tudo funciona harmoniosamente sob o comando de Reginaldo, a carreta é um cavalo bem domado.

Giro elegante, vagaroso, as rodas enormes vão passando rente ao meio-fio, um capricho. A carreta se descomplicou e agora está apontada para onde pode seguir rumo. Os curiosos se dissipam, as buzinas se aquietam, o trânsito flui, só o que ainda se prolonga é o que Reginaldo, imperturbável, ainda tem para contar sobre música, presentes, despesas, bolo...