Natal Pueril


Dorme-se, acorda-se e, surpresa!, lá estão as ruas, as casas, as lojas enfeitadas. Não importa muito saber quem providenciou a arrumação, talvez persista em cada um de nós a ingenuidade infantil de achar que os temas de Natal sejam preparados mediante algum método misterioso.

Mas não aqui neste restaurante de beira de estrada. Os clientes vêm carregando suas bandejas enquanto, lá em cima, o funcionário se equilibra no topo da escada posicionada entre as mesas, se olhar lá embaixo terá vista para o verde das saladas, para o brilho da carne gordurenta, ele faz careta de esforço, um rústico Michelangelo a querer pregar no teto guirlandas e anjos de trombetas na boca. Aliás, tenho pra mim que neste ambiente só uma pessoa está habilitada a ouvir o que aqueles anjos estão tocando, é um bebê, que, bem aqui ao lado, não para de chorar, a mãe dele não tem controle sobre os berros e soluços, a julgar pela estridência do berreiro, receio pelo que essas trombetas desafinadas possam estar anunciando.  

Bem, se há algum mistério nisso tudo, ele se refere ao motivo de terem escolhido precisamente o horário do almoço para promover o bagunçado desse tipo de instalação, pode até ser que na saída cobrem o couvert pela exibição de como se monta o ornamento natalino, com destaque para o arrojado e simétrico alinhamento das peças. Não é isso, eu sei, a questão se deve mais à pressa dos nossos dias, na verdade todos estão perdendo, aos poucos, o costume de fazer uma coisa de cada vez.

O funcionário desce a escada e some por um momento. Quando volta, traz consigo uma furadeira. É chegada a hora de experimentar o sabor de poeira, ao menos esta é uma poeira encantadamente peculiar, esta é uma poeira vinda dos anjos.