Caneta Inestimável


Ele aparece sorrateiro, ou melhor: materializa-se como obstáculo no meio do meu caminho, traz no rosto punhados de espinhas, áreas avermelhadas que mais parecem ter sido provocadas por comichões incessantes, coceiras remexidas. Não há como driblá-lo, é alguém experiente em fazer do corpo uma cancela. Estende a mão e me mostra uma caneta verde-escura. Apressado e prevendo insistência, tento encurtar a investida:

– Quanto é?

Tão curta, tão bombástica, a pergunta atinge o garoto como uma bofetada, ele protesta com cara de quem recebeu ofensa grave:

– Esta caneta não tem preço. Olha, ela escreve macio e, mais importante, é do tipo usado por Manoel Pereira.

– Manoel Pereira? Não conheço – digo mal disfarçando o constrangimento da ignorância.

– Eu conheço muito bem, ele é meu avô. Gosta de escrever poemas num caderno com capa da Peppa Pig – o garoto identifica um sorrisinho que me sai do canto da boca e, agora animado, continua: – Você fica com a caneta e me dá a quantia que achar que ela vale.

Dou cinco reais ao garoto que parece se surpreender com um valor maior do que esperava, ele entrega a caneta, agradece e se despede. Ligeiro, some de vista, é alguém experiente em fazer o corpo se misturar aos passantes.          

Hora do teste. Mais tarde, movimento a ponta da caneta contra o papel: nada. Faço vários círculos, traços, tento escrever alguma palavra aleatória: nada. Há ranhuras em toda a superfície do papel, ranhuras que em alguns pontos avançam à condição de rasgos. Desmonto a caneta e constato não haver nela qualquer rastro de tinta. Não me zango, não me decepciono, prefiro acreditar que aquela tinta foi toda consumida pela escrita de Manoel Pereira, quem sabe não deu vazão a poemas para todo e sempre gravados num caderno com capa da Peppa Pig.