Sonho interrompido


Repare, não existe criatura mais desenvolta do que o cachorro de rua. Veja o exemplo deste que agora me encara, orelhas erguidas, olhar simpático. A atenção dele é atraída pela sacola de supermercado que tenho no colo, é um raciocínio lógico associar esses receptáculos de plástico ao alimento que neles os humanos costumam carregar. Mas hoje infelizmente a lógica não o socorre, a sacola não é nada mais que um improviso para guardar minha caderneta velha, amassada e naturalmente intragável. Perspicaz, ele não demora a perceber que isso aqui não tem cheiro do que possa lhe ocupar o estômago, vida que segue, passa então a caminhar com jeito de enfado, posso jurar que ele resmunga.

Acomoda-se embaixo do banco onde estou sentado, deita devagar, em etapas, deixa a cabeça pousar no chão e dorme, mas é um sono intermitente, vez ou outra acorda por ouvir um latido ao longe ou porque alguém passa chamando-o pelo nome, Brancão. Enfim consegue dormir profundamente, é um sono ininterrupto que o faz ressonar feito bebê. Sei que agora ele sonha. Não é preciso recorrer a algum trabalho científico para confirmar que os cachorros de rua podem sonhar. Se mesmo nos labirintos nebulosos da mente de um facínora, de um tirano, de um canalha, aos sonhos é possível transitar, por que então eles não passeariam em paisagens mais arejadas, em campos mais descomplicados, que são os caminhos entre os neurônios deste bicho deitado sob a sombra de um banco de praça, a própria personificação da docilidade?

Estou convicto de que ele sonha, mas daí a imaginar como seria esse sonho, se parecido ou não com os nossos, isso é coisa que não consigo. A julgar pelos espasmos da pata dianteira, pelo bufar das narinas úmidas, pelo entrar e sair da língua, pelo tremelicar dos olhos, só o que arrisco a dizer é que Brancão está metido num sonho agitado. De repente, aos olhos são devolvidas as cores da realidade, Brancão acorda sem concessão a mais um tempinho de cochilo, de preguiça. Levanta-se determinado, sem nem sequer se espreguiçar, é como se impusesse a si mesmo: chega de sonhos. Uma força lhe arrasta pelo focinho e o faz farejar os canteiros das árvores, obriga-o a vasculhar possibilidades entre vendedores ambulantes, a seguir as pessoas para quem capricha na cara de pidão, tudo isso é feito sem que o rabo pare de ser abanado, um sinal de bom ânimo, elegância ou até mesmo uma forma de deixar lembrete, um aviso de que não há sonho que resista à persistência da fome. Todos nós sabemos disso ou deveríamos saber. Brancão sabe e vai se virando como pode.