A vida é um sorvete derretido


Quanto sabor! Que deleite! Está tudo muito bem, mas aí cai a primeira gota, muitas outras se sucedem, agora já é o caldo alagando o dorso da mão, a avalanche cremosa desce devagar até invadir as riscas entre os dedinhos. A menina vai da alegria ao susto, esbugalha os pequenos olhos, desespera-se por ter perdido o controle da situação. O rosto se ergue em direção a quem de praxe lhe resolve as encrencas, resta a ela o socorro da mãe.  

A mãe, porém, não toma qualquer atitude. Ponta do nariz, boca, queixo lambuzados, a menina se impacienta e ameaça chorar, mas ainda assim a mãe permanece impassível. É prematuro estranhar essa reação, certamente ali está em curso a aplicação de uma lição sutil, é como se a mãe, mantendo os olhos compenetrados na menina, dissesse a ela: é assim mesmo, minha filha, vá se preparando para lidar com essa mistura de prazer e percalços, de euforia e incômodo, de gosto e desgosto. A menina se aquieta, parece ter se curvado à sabedoria materna e só o que lhe importa é aproveitar o pouco que ainda não derreteu. Agora sim é hora de agir, a mãe retira da bolsa uma toalhinha cor de rosa e a esfrega nas mãos e no rosto da menina, é uma brutalidade carinhosa que logo faz restaurar a aparência de criança asseada.            

Isso faz lembrar um programa de entrevistas, ao final do qual Antônio Abujamra, invariavelmente e em tom grave, encurralava o entrevistado com a pergunta “o que é a vida?” Havia silêncios constrangedores, contorcionismos filosóficos, definições interessantes, nada, contudo, demovia o entrevistador de, também invariavelmente, insistir na pergunta: o que é a vida? Talvez a repetição fosse menos por empáfia ou insatisfação e mais porque a resposta não se esgota, requer renovação, aprofundamento indefinido. Hoje, só hoje, arrisco a seguinte resposta: a vida é um sorvete derretido. Nem sou eu quem a formulou, ela veio dessa força da natureza, que é a comunhão entre mãe e filha.