Exibimos filmes pornográficos


Espalhados pelo centro, alguns cinemas eróticos não se deixam ver com tanto alarde, têm seus sinais, seus códigos; os frequentadores sabem identificar o significado da cortina vermelha, dos cartazes e seus títulos maliciosos, mas há também os que dispensam comunicações incógnitas, são apressados em dar explicação sobre sua serventia, como é o caso deste aqui, atrás da Cinelândia, ele não titubeia: “Exibimos filmes pornográficos”.

O letreiro ocupa quase a fachada inteira que é para não haver dúvida sobre a natureza do entretenimento. Claro, os horários também estão muito bem divulgados. Inclusive, daqui a quinze minutos começa uma sessão, aí está a oportunidade para bisbilhotar a audiência do lugar. Eu sei, é quase uma invasão de privacidade, mas prometo não ir muito além da observação superficial, não sou de devassar costumes nem expor ninguém a revelações. Aliás, eu é que me revelo um espião fajuto, vem se aproximando alguém já conhecedor da minha curiosidade, cabelos brancos penteados para o lado, barriga perfeitamente arredondada, parece carregar por dentro da camisa uma bexiga de ar inflada até quase a última consequência do estouro, o sujeito é do tipo conversador:

– Lá dentro o bicho pega.

Sorrio com cara de interrogação como se querendo me passar por desentendido.

– Ali só passa filme repetido, aquilo é um engana-trouxa – ele continua.

Já que não sustento a conversa, o sujeito não fala mais nada, apenas permanece ao meu lado, é mais um a exercitar a contemplação infame.  Vemos quando a porta se abre e agora, como se surgidos de algum esconderijo, os espectadores, em grupo, irrompem pela entrada do cinema, neles se destaca uma faceta impossível de ignorar: todos são velhos, alguns muito velhos, dois dos quais não conseguem se deslocar sem o amparo de suas muletas. Apesar de tudo, não se pode deixar de reconhecer que ali vigora certa áurea de serenidade, eles estão silenciosos, compenetrados, comportam-se como prestes a entrar num concerto de ópera. Por estranho que pareça, há ali alguma pureza.

Uma garota e dois garotos passam em frente ao cinema, os três olham ao mesmo tempo para o letreiro e então começam a rir, vão fazendo comentários zombeteiros enquanto se afastam. São jovens, não compreendem que ali dentro está sendo travada uma batalha dramática em que se opõem o homem e o tempo. É provável que aqueles velhos, reclusos em suas debilidades, encontrem na tela uma forma de driblar a distância até os remotos dias de pujança funcional. Quem sabe deleguem aos atores de desempenhos frenéticos, de frêmitos extravagantes, de peles firmes a tarefa de reativar memórias, de reacender algum entusiasmo perdido na pilha de décadas acumuladas, se por um momento, um instante ínfimo que seja, sentirem-se novamente tomados pelo regozijo da mocidade, aí então já será uma boa desforra contra o tempo que lhes roubou o vigor. Lá dentro, a sala escura talvez não seja só um parque de salientes diversões, também é onde se pratica um ato de resistência à decrepitude.

Todos parecem ter entrado na sala, a sessão vai começar. É aí que, num ímpeto, o sujeito ao meu lado atravessa a rua e, apressado, adentra o cinema. Não disse nada, não se despediu, está certo, não me devia satisfações. Sim, está certo, o trouxa que se deixa enganar é na verdade um perseverante, um otimista incorrigível.