Os pombos e os gols


É um abandono, faz tempo não cuidam do campo. Houvesse ali um jogador de futebol, a grama encobriria suas canelas, tão alta que alcançaria os joelhos. Seja como for, hoje o espetáculo não tem a ver com bola rolando nem com dribles desconcertantes, mas sim com o que acontece numa das traves.

A fileira de pombos faz do travessão um poleiro, eles estão espremidos lado a lado de modo a não haver mais espaço vazio, ocupação completa. São de muitas diversidades: azul-pavão, cinzento, branco da paz, branco malhado, uns estropiados, outros vigorosos. Peitos estufados como de costume, todos estão virados para a direção em que se avista a descida de um avião, procedimento de pouso. A luz do sol incide sobre a fuselagem branca, centelha de brilho que dura o tempo de um flash. O que será que os pombos confabulam sobre o avião? Será o gigante metálico dos céus uma espécie de deus das aves?

Como não pensei nisso antes? A cena dá uma foto e tanto. A depender do ângulo certo, posso até me passar por fotógrafo de enquadramentos sensíveis. E depois ornamentar a fotografia, brincar de artesão da imagem, moldar matizes, testar efeitos: sépia, turquesa e – o mais elegante – preto e branco. Ao final, ampliar a fotografia e escolher a moldura.

Devaneio fatal. Enquanto planejo os detalhes do meu vão ensaio fotográfico, os pombos alçam voo, um a um desfazem a cena, parecem ter adivinhado a minha intenção, esses são bichos ariscos que não admitem serem capturados nem sequer nas balizas de uma fotografia.  

A esta altura, o avião já pousou, quem sabe até tenha voltado a decolar, foi feito para estar nas alturas. Os pombos se dispersaram, cada qual a ciscar em algum telhado, numa praça qualquer. A trave repousa abandonada em meio à grama alta, ao menos por um tempo está livre das boladas disparadas por chutes sem mira. 

É uma pena não haver fotografia daquela reunião que não se sabe quando e se será presenciada outra vez. É a imagem portadora de veracidade inconteste, reveladora de detalhes em abundância, causadora de impressões imediatas, mas em sua falta, este relato, desajeitado e insípido que seja, também serve de registro. Que os pombos não se sintam ressabiados, aqui estão livres para fazerem o que quiserem.