Madrugada complacente


Corro o risco de anunciar o óbvio, de trazer constatação requentada, mas mesmo assim preciso dizer que a madrugada é terreno fértil para flagrantes inusitados. Sei bem o que é isso, sou frequentador contumaz dessa paisagem vertiginosamente insólita. Nos períodos de maior insônia, minha janela se torna camarote com vista para situações as mais pitorescas. Eis mais uma.

A calçada é o camarim, as folhas das árvores formam a cortina que vai se abrindo por obra de uma rajada de vento providencial. Ouve-se o pio de algum pardal também insone, aí está a sineta que anuncia o início da apresentação, que comece o espetáculo!     
Ele desponta vagaroso, capricha no jeito de caminhar, passos meticulosos, cada um deles somente se inicia depois que o antecessor já se completou em definitivo. Na madrugada, a soberania dos carros é posta abaixo: o meio da rua deserta serve de palco para um desfile. E há nisso uma surpresa só revelada agora que ele se aproxima. 

Não usa camisa, e a bermuda está arriada, vai descendo pelas pernas à medida que a cadência dos movimentos avança. Pois bem, as criaturas noturnas, aí incluídos os morcegos, os grilos, a brisa fresca, as estrelas menos recatadas, todas são convocadas ao testemunho de uma desinibição, o homem desnudo passa deixando rastro de desprendimento.

Há pela frente um poste apagado, e é sem qualquer cerimônia que o homem desnudo o abraça, pele e concreto em contato muito íntimo. O abraço se desfaz, e o que resta do afago inicial é a mão alisando a superfície cilíndrica, ela percorre uma volta inteira e mais outras, a velocidade aumenta, o braço se estica, o corpo gira em torno do poste, Fred Astaire descompensado.

Clarão repentino. Incomodado pelo assédio, o poste se acende, artifício muito prejudicial às pretensões performáticas do homem desnudo, que se assusta feito vampiro em derrota, passos para trás enquanto suspende a bermuda. Depois de vestido é que vem a inibição, constrangimento às avessas, ele foge, se afasta da luz, vai para onde não lhe possam notar as decepções, os medos, as fraquezas, o vício ou até, quem sabe, a eventual insuficiência de alegria.         

Agora que a escuridão lhe dá acolhida, ele volta a abaixar a bermuda, caminha lento e elegante, o desfile recomeça e pode até ser que dure pelo tempo em que o amanhecer não dê as caras. O homem desnudo está à vontade. Se toda nudez será castigada, a madrugada é seu salvo-conduto.