Nos vagões da vida, o show deve continuar


O casal entra sorrateiramente no vagão, parece em curso uma missão clandestina. No semblante dos dois está aquele destemor ingênuo só possível aos jovens, a inexperiência tem braços muito longos a quererem dar conta de envolver o mundo num abraço sem fim. O que será que carregam dentro das bolsas de pano? O que merece manuseio tão cuidadoso? O mistério não se prolonga, cada um deles revela seu respectivo objeto. A moça: um clarinete. O rapaz: uma sanfona.

É uma canção francesa, um jazz parisiense, quem explica é a moça do clarinete. Cabelos longos e alvoroçados, vestido encardido, unhas descoloridas, é muito nova, não passa dos dezoito, a julgar pela habilidade musical, provavelmente as partituras lhe são íntimas desde a infância. Ela retoma o concerto, isso de soprar melodias pelo ar é como mágica.

Antes de cada música, os dois combinam alguma coisa aos cochichos, acerto particular. A participação interativa do rapaz não vai muito além disso, ele se limita a tocar a sanfona sem maiores manifestações, não olha para os lados, não sorri, aceita bem o papel de coadjuvante que lhe cabe. Pois então é a moça que vai anunciando as músicas e detalhando informações. Para ela, contudo, a tarefa revela-se um grande obstáculo, falar em público não se equipara ao seu talento musical, a voz gagueja, sai baixinha, quase um sussurro, há nas palavras um entusiasmo artificial. Que mal há nisso? Nenhum. Aliás, a própria audiência é tomada pela timidez, os aplausos são contidos e curtos. Eu mesmo poderia gritar “vivas”, “bravo”, mas, espectador acomodado, nem sequer aplaudo, restrinjo-me à minha contemplação acanhada.  

Não se vê um chapéu virado, não se vê, aberto, o estojo de algum instrumento musical, nada há no piso do vagão que possa servir de receptáculo para notas e moedas. Durante toda a apresentação, nenhum apelo, nenhuma solicitação, nada se pede em troca. Por que eles continuam a tocar com disposição inabalável? Pelo reconhecimento? Não, os aplausos já cessaram faz tempo, as pessoas estão de volta à distração de seus celulares, conversam entre si, a mistura sonora entre clarinete e sanfona transformou-se em mero som ambiente. Mas então por que continuam? De Milton Nascimento a Freddie Mercury, as canções versejam a resposta: todo o artista tem de ir aonde o povo está, porque o show deve continuar.

Desço do vagão, ele se distancia, lá dentro ainda estão a dupla de músicos e também os meus aplausos contidos.