A postiça festa dos urubus


Não é o tipo de chuva que encharque tanto. Basta apressar o passo, ir alternando o trajeto de modo a caminhar por baixo das marquises, das copas das árvores, e então logo se chega ao destino sem que nas roupas e nos cabelos haja mais do que uma fina camada de umidade que se resolve com o simples espanar das mãos.

No caso, o destino é onde convivem harmoniosamente o político corrupto da vez, o artilheiro da rodada, o saradão da revista fitness, a mulher em pose erótica, Mônica, sua turma e também, descidos direto do olimpo da sabedoria para os fascículos da coleção de Filosofia, Platão, Aristóteles, Kant, Shoppenhauer, Nietzsche, qualquer banca de jornal é sem dúvida um santuário das variedades. Ali em frente, a rua, banhada há horas sem parar, começa a dar sinais de estrago, é o bueiro que entupiu, é a bagunça que os ônibus fazem com as poças d’água. Se isso vai melhorar ou piorar, é natural, quase automático, que eu, meteorologista diletante, olhe para cima. Surpresa.   

O céu branco está pincelado de traços negros, tantos riscos esvoaçantes congestionam os ares a ponto de não caberem todos no enquadramento delimitado pelos prédios. Desço os olhos e eles aterrissam no grupo de três pessoas, uma delas folheia um guia turístico, todos usam capas de chuva, baita exagero, é que o turista deve aproveitar ao máximo a experiência de cada ocasião. Questão de tempo, pouco tempo, um deles descobre o que se passa lá em cima, ele faz o alerta e pronto, três celulares já estão erguidos em busca do ângulo mais favorável.  

Nossa, uma invasão, parece aquele filme do Woody Allen, diz o homem alto, magro, dono de uma simpatia desengonçada. É Hitchcock, corrige a mulher, jeito debochado, o homem sorri, não se leva a sério, e a coisa fica engraçada. Até então calado, o terceiro turista, jovem, sisudo, tatuagem indecifrável no pescoço, inaugura as hipóteses sobre as causas do fenômeno aéreo, é algum bicho morto por perto, a partir daí se instaura um debate especulativo, aqui no meio da cidade acho difícil ser um bicho, tipo boi, vaca, difícil ser um bicho grande que atraia tantos assim, então pode ser que seja corpo de gente, a carne humana é mais atrativa que as dos bichos, cruzes, alguém assassinado ou atropelado, acho mais provável alguém assassinado, sim, corpo desovado, tem razão, aliás pode ser até que sejam muitos, chacina na madrugada.       

Os turistas avançam pela garoa, vão desbravar a cidade, quem sabe esbarrem com algum corpo em decomposição, com algumas carcaças que lhes esclareçam quem dos três melhor conhece sobre assuntos de putrefação. Vindo de dentro da banca de jornais, o jornaleiro traz uma informação importante. Braços para trás, olhos no céu, ele diz: aquilo não é urubu, é fragata, e fragata só come peixe. Repare, é só quando o trio está longe que o jornaleiro, discreto, decide fazer a divulgação. Bem se vê que não é um estraga prazeres.