Chapa quente, cuca fresca


Pendurado na parede, o retrato mostra o perfil de um jovem de bigode e cabelos escuros. Fora o fato de serem a mesma pessoa, o jovem do retrato e o velho no caixa do bar nada têm em comum, o tempo é um escultor de ruínas. Enquanto as mãos manuseiam dinheiro, os olhos se levantam por cima dos óculos, supervisionam o vai e vem dos garçons. É hora do almoço, que se erga o cheiro de fritura.

O prato fumegante pousa ao lado do encarte de supermercados, fazendo com que o casal interrompa o exame dos preços. Ele e ela trocam expressões de surpresa. Imediatamente, ela aperta o botão do celular, e o brilho da tela lhe transmite uma informação.

– Menos de nove minutos – ela fala alto.

A julgar pela risada, o garçom encara aquilo como um elogio, ele se retira apressado, há ainda na bandeja dois pratos para servir. Antes, porém, aproxima-se do chapeiro e lhe cochicha um comentário, os dois acham graça, isso dura poucos segundos, ambos já estão de volta às suas respectivas ocupações, a descontração fugaz se dissipou mais rápido do que a fumaça expelida pela chapa.

O chapeiro usa um chapéu de palha com extravagantes abas largas, está sempre em movimento, é muito ágil em virar e revirar os ovos, os pedaços de frango e linguiça. Para ele, as espátulas são tão íntimas quanto as mãos de tesouras são para Edward. Vigilante ao seu posto de trabalho, está quase sempre de costas, flagra-se agora a exceção em que dois meninos sentados junto ao balcão o fazem dispersar, ele se vira, rosto umedecido, parece haver um plano em andamento. O chapeiro volta-se para a chapa e, dominando algum procedimento de alquimia, provoca a erupção de uma labareda enorme e instantânea. Os meninos levam as mãos aos rostos em gestos simultâneos, estão extasiados, isso é pura mágica. Promover o encantamento infantil é um feito que deixa o chapeiro orgulhoso, seu semblante não disfarça certa vaidade ingênua. Do canto da boca sai um sorriso que é como uma piscadela de quem compartilha um segredo de travessura. Na condição de estar sempre imerso em atmosfera abrasadora, o chapeiro vai inventando intervalos de refrigério.

À noite, de volta ao bar.  Ao redor da única mesa do lado de fora, há ainda a reminiscência de poucos fregueses que conversam num tom acima da sobriedade. É entrar e, quase irreconhecível sem o chapéu de abas largas, lá está o chapeiro às voltas com o zíper indomável da mochila fechada pela metade. Com gás ou sem gás? Solícito, ele para o que faz para atender a um pedido intempestivo, traz a garrafa de água mineral na presteza que lhe é peculiar. A boa disposição contrasta com os olhos avermelhados de cansaço. Já faz muito tempo desde a hora do almoço. Mais de nove horas.