Ser ou não ser


A padaria é um marasmo só, a lentidão com a qual o ruidoso ventilador de teto demora a completar uma volta dá o tom na tarde quente e preguiçosa. Tem-se aqui um desânimo dotado de propriedades contagiosas, isso se nota pela prostração das atendentes, todas debruçadas no balcão, e pela indisposição generalizada da clientela. Eis então que uma aparição repentina – dessas comparáveis à chegada do cowboy ao sallon de um filme de bangue-bangue – vem destinada a suspender a pasmaceira.

Impossível ignorar os cabelos há tempos sem corte e sem lavagem, os andrajos cobrindo o corpo mirrado, a mochila bojuda, que muito provavelmente é seu guarda-roupa portátil. Contudo, não é o caso em que o figurino roto mereça maior destaque. Como já dito em algum manual de comportamento corporativo, o homem é a soma de suas atitudes.

Há muitas formas de impor a própria presença. No mínimo, duas delas se manifestam assim que ele adentra o recinto. Primeiro, ele levanta os dois braços como se quisesse iniciar a regência de uma orquestra. Depois, apela para um recurso arrebatador: o grito.

– Me respeitem que eu sou o prefeito, eu sou o prefeito.

Ninguém contesta, as pessoas se entreolham caladas, fazem silêncio solidário à insanidade alheia. Outro grito explode em reforço. Mais conciso, traz uma rima aparentemente pensada para favorecer o bom entendimento.

– Quero respeito, eu sou o prefeito.

Satisfeito ou não, o homem se retira, levando embora seu repertório de gestos escandalosos. Dentro da padaria, não se vê repercussão sobre o ocorrido, todos já estão de volta ao enfado de antes, também pudera, viesse o messias, viesse Napoleão Bonaparte, mas o prefeito?! Houve tempo em que a loucura apresentava-se com mais ambição.

A missão não acabou. Do lado de fora, alonga-se a peregrinação a favor de que uma informação esteja ao alcance de todos, a cada um que passa é anunciada a identidade do chefe do poder executivo municipal. Sim, as pessoas vão sendo, aos gritos, devidamente avisadas, em especial o homem baixo, calvo, paciência curta, gaiatice aguçada, ele estica o braço, aponta o dedo e diz:

– Pois então siga naquele caminho, trate logo de ir pra lá trabalhar.

O suposto prefeito se aquieta, permanece parado por alguns segundos. Ajeita a mochila nas costas, recomeça a andar, atravessa a rua, vai se distanciando. E segue caminho na direção contrária à prefeitura.