A leitora


Em uma das margens da rodovia, a rampa coberta de grama estende-se até bem alto, arquibancada com vista para o frenesi dos carros, dos ônibus, das motos. Imperceptível aos olhares sempre transitórios, hoje é possível notar que ali é lugar acolhedor a deleitamentos, isso quem demonstra é a moça entretida com o livro acomodado no colo.

Isolada quase no topo da rampa, envolta pelo verde do chão inclinado, ela concebeu um piquenique literário sem convidados visíveis. Os cabelos longos descem até muito perto do papel, as pontas de alguns fios haverão de beijar palavras, sublinhar suavemente uma frase qualquer, quem sabe um aforismo a perdurar na memória pela vida inteira. Os olhos foram capturados pelas páginas e já não há meios de se dispersarem, nada os tira dali. É um anzol de letras, quem é que a fisgou de maneira a deixá-la em transe? Que história tem o poder de mantê-la hipnotizada? Para saber, é preciso muita paciência, a curiosidade impõe vigilância demorada. E, enfim, a prolongada inércia do corpo causa à moça incômodo oportuno à investigação. Ao ajeitar a posição das pernas, ela ergue o livro, cuja capa agora está à mostra, movimento rápido, exibição instantânea, mas o suficiente para a identificação. Dostoiévski.

Como algumas revelações são esclarecedoras! O céu se fecha depressa, frente fria em andamento. Vem vindo aí um vento gelado que sopra em todas as direções, vai puxando para baixo a temperatura. Muito provavelmente a moça agora esteja cercada por uma sensação congelante, dá pra adivinhar seus músculos todos contraídos. Fosse possível colocar-se no lugar dela, aí então a cabeça e os ombros estariam salpicados de flocos em derretimento, seria visível o derredor verde embranquecer-se de neve.

Forma-se um grande engarrafamento ao longo da rodovia. As buzinas devolvem calor à cena, elas são acionadas por motoristas que avistaram a leitora e agora querem roubar-lhe a atenção, instinto rudimentar, tem sido assim desde os tacapes. As buzinas continuam ecoando, e isso é uma persistência inútil. Em destaque, a leitora é avistada por todos, mas não avista ninguém. Ninguém que não esteja em trajes russos.