Couve, catuaba, café


Faz tempo quero conhecer o lugar, um bar pequeno, pouco frequentado, do tipo tradicional que exibe na parede pôsteres de times campeões, são times de variados clubes que é pra não desagradar os fregueses mais enciumados. Percebo de imediato que o ambiente cheira a hortaliça, se entrasse de olhos fechados, poderia jurar que estou agora na feira livre, diante de uma banca de verduras, ou então no meio do setor de hortifrutigranjeiros de algum supermercado. Do outro lado do balcão, o dono do bar porta um facão com o qual vai fatiando um rolo de couve, isso em cima do feezer que faz as vezes de mesa. É um trabalho muito meticuloso, a postura é a de um chef de cozinha concentrado que vai produzindo tirinhas verdes de larguras tão perfeitamente iguais que é como se medidas a régua. É mais que um preparo, é uma arte.

No rótulo, homem e mulher em trajes mínimos compõem uma cena pretensamente – como dizer – estimulante. Já pela metade, a garrafa de Catuaba Selvagem expõe-se num canto do balcão, provavelmente está largada ali desde a noite passada. Peço um café. Velho, magro, camisa quadriculada nos moldes das toalhas de pizzaria italiana, o dono do bar faz que sim com a cabeça, mas não interrompe o trabalho de fatiar o rolo de couve. Não tenho pressa. Enquanto espero, olho para a garrafa de Catuaba Selvagem e me distraio com o rótulo de gosto duvidoso. Também observo a pia instalada abaixo do balcão, há nela vários copos por lavar, todos são copos de vidro, daqueles típicos dos bares, botecos e afins: copo americano, cuja marca registrada são os gomos alongados e de pequena protuberância que o envolvem por toda sua circunferência. Servem para tudo, a cachaça, a catuaba, a cerveja, o café, sim, meu café, enfim, é servido num deles, vem desacompanhado de açúcar e de colherzinha, mas não reclamo, já é muito que eu tenha desconcentrado o dono do bar, que, ligeiro, já está de volta ao rolo de couve, dedicação absoluta.

Pela primeira vez ouço a voz do dono do bar, é mansa, quase inaudível. Sem tirar os olhos de sua tarefa, informa o placar de um jogo. O autor da pergunta é um freguês que folheia o jornal no balcão oposto e cuja presença só agora noto. De repente, o dono do bar corta a conversa e mergulha novamente num silêncio de atenção. Como se deslocasse cristais delicados, ele pega um maço de tiras de couve e as leva até uma bacia branca, um ritual bonito de ver, cuidado extremo. Evito perguntar quanto é o café, é pra atrapalhar o mínimo que eu mesmo consulto a tabela de preços pendurada ao lado dos pôsteres de times. Um e cinquenta, aí está a oportunidade de esvaziar o bolso, esse depósito de trocos acumulados. Há pedacinhos de couve grudados em toda parte da palma da mão que se abre para receber as moedas. Sem conferi-las, o dono do bar as joga na gaveta da caixa registradora, o que lhe importa é estar de volta ao rolo de couve.   
Há um detalhe importante que só agora revelo. Desde quando entrei aqui, ouço um chiado insistente. No fundo do bar, a panela de pressão trabalha – aí vem um trocadilho irresistível – a todo vapor. É de lá que surge uma mulher de avental. Mão na cintura, ela lança um olhar de fiscalização, um olhar de dona-do-dono-do-bar, um olhar que explica muita coisa. Vou saindo e já na rua vejo que o quadro escrito a giz ainda não foi atualizado com o prato do dia. Eis um bar de variadas ofertas, o café não é dos melhores, mas a feijoada, a julgar pelo preparo da couve, é mesmo feita no capricho.