Um amor de sandálias


Às vezes o peso das coisas faz a cabeça tombar. Nisso não há demérito, perceba como ao redor é normal encontrar quem também carregue os olhos caídos, os ombros pressionados por um fardo invisível. Andar por aí de cabeça baixa é inclusive a chance de descobrir os quase sempre despercebidos acontecimentos que se dão na altura do chão.

Elas vêm arrastadas, o atrito com a calçada produz efeito sonoro parecido com o riscar de palitos de fósforos. Na dianteira, trazem dedos espremidos, nas unhas há resquícios de esmalte vermelho, pintura desgastada. Não são sandálias comuns, elas também servem à exibição de uma mensagem: na sandália da direita está grafada a sílaba “LO” e na da esquerda a sílaba “VE”, grandes, gritantes, coloridas.

Mesmo em linguagem mercadológica, é um modo muito simpático de afirmar a itinerância do amor, é traçar relação com as distâncias percorridas, com os obstáculos vencidos, e a dureza desses obstáculos encontra farta comparação no desnível das calçadas, na topada em pedra pontiaguda, nas poças de água barrenta, nos dejetos de cães – ai das sandálias se houver uma mínima esbarradinha. As pernas são o motriz que alternam a divulgação da palavra benfazeja, e aqui se enxerga outra missão que é a de atribuir ao amor a interação, não se ama sem o outro, nem sem que haja o revezamento de cooperações, e então por isso o amor é o ponto comum que une a esquerda e a direita – me refiro às pernas. Pode ser que algum desiludido descubra nessas sandálias a maneira de confirmar que o amor é coisa rasteira, e também há quem talvez atribua a elas o significado oculto do amor sensual. Claro, por que não?, isso de ter que juntar as sílabas remete a um quebra-cabeças erótico, ao encaixe dos amantes, mas aí já é assunto que pode se alongar e agora é preciso não perder de vista a pessoa que traz nos pés a matéria-prima do que se tem feito de melhor e pior neste mundo.     

Levanto os olhos e só então a vejo de corpo inteiro. A mão direita segura a alça de uma sacola de compras, que é leve, daí não ser em razão dela que a coluna verga, talvez escoliose. O acúmulo dos muitos anos de vida marca presença em cada articulação emperrada, em cada movimento cuidadoso, nota-se um permanente receio de cair, mas aí estão as sandálias para a manterem firme, já sei que nisso desponta mais outra – a derradeira – forma de interpretação, é o amor sustento, suporte, arrimo, condução, força de reboque, amparo indicado para prevenir tropeços e quedas.   

Lá vai ela por cima das suas sandálias afetivas. Feito Camões, vai andando por aí a querer espalhar metáforas sobre o amor. E, pelo que tenho percebido, ela tem um jeito especial de andar, anda com a cabeça reta e os olhos para frente.