A revolução dos desenamorados


Não foi distração, não foi negligência, não foi esquecimento. O arranjo de flores está abandonado no banco do ponto de ônibus por deliberado ato de desprezo. Quem o deixou ali teve a preocupação de posicioná-lo bem no meio do banco e também de alinhá-lo verticalmente de maneira a não permitir que ele seja visto em tortuosidade, é um recado sobre não se ter nada contra as flores, mas sim contra a pessoa que as ofereceu como presente.

São flores pequenas, a cor está entre o vermelho e um tom de rosa mais escuro, o vento balança as pétalas minúsculas, uma carícia sinistra que anuncia a iminência da morte. As pessoas se sentam nos outros bancos em respeito ao esvaecimento embalado em papel celofane, todos sabem que não é só o arranjo de flores que jaz agonizante naquele banco de ponto de ônibus, ali também definha uma história.

Confesso não ter dado tanta importância à cena, quase a deixei passar em branco não fosse, coincidência das coincidências, ter me deparado no mesmo dia com um buquê de flores estatelado em meio ao entulho de uma obra.

Oásis de beleza colorida cercado pelo caos, já faz tempo que o buquê está ali misturado entre cacos de tijolos, cascalho, montinhos de areia, sacos vazios de cimento. Desta vez o descarte foi feito sem qualquer delicadeza. Está muito claro que, não havendo lixeira à mão, alguém jogou as flores num lugar igualmente receptivo às coisas sem serventia e não é preciso perícia para saber que elas foram atiradas com a fúria dos passionalmente amargurados.

Tão outrora exuberantes, as margaridas vermelhas agora pendem de seus talos, tombam murchas, apodrecidas. As folhagens transformaram-se em aeroporto para pousos e decolagens dos mais variados insetos. E é só vasculhar o entorno para encontrar muitos pedaços de rosas espalhados por toda parte. Não se pode nem brincar com a possibilidade de o cravo ter brigado com a rosa, porque cravos ali não há. Olhando mais de perto é possível ler o nome, endereço e telefone da floricultura numa etiqueta que acumula as funções de divulgação e de adesivo que fixa o laço ao buquê, um laço já quase desfeito por completo.

Flagro dois meninos carregarem para longe o que restou do buquê, só a imaginação dá conta de especular qual tipo de brincadeira terá como objeto aquelas flores em frangalhos. Certo mesmo é que está em curso uma revolução e é bom que fiquem atentas as pessoas românticas, arrependidas, cafajestes, gratas, galanteadoras de toda a sorte. Vai se disseminando por aí a lição de que é preciso apurar a forma como se quer cativar o outro, flores já não bastam.