Bem-se-vê


Muito frequentemente sou testemunha de uma batalha ferrenha, inclemente mesmo. Tudo começa com um grito agudo, trombeta de guerra. É o sinal que anuncia o pouso do gavião no aro da antena parabólica. Aprumado, sua atenção é suscetível aos mais insignificantes movimentos, ele tem a exata noção do que está para acontecer.

Não demora quase nada e, vindo não se sabe de onde, o primeiro ataque chega em forma de rasante, o bem-te-vi arremete, alça voo até bem alto, manobra as asas com arrojo, faz a curva e depois se atira em direção ao gavião que, atordoado, olha para todos os lados na vã tentativa de se orientar sobre a ofensiva aérea. Cada vez mais próximos do alvo, os rasantes se intensificam e isso é um incômodo difícil de suportar. Por mais que tente resistir, o gavião invariavelmente se rende, decolando afugentado. Mas a contenda não para por aí, segue-se uma perseguição nas alturas, o bem-te-vi não se dá por satisfeito, vai despejando seu arsenal de rasantes até que tenha espantado seu rival para muito longe, e é lá de longe que ele canta vitória, entoa seu grito de guerra, o trinado que nomeia a espécie. Enfim, o resultado é sempre o mesmo, não há uma vez em que o bem-te-vi não bote o gavião pra correr, ou melhor, pra voar.

O bem-te-vi é, portanto, um bicho invocado. Em reforço a isso, a faixa escura que lhe esconde os olhos se assemelha à pintura do guerreiro e o faz parecer estar em permanente irritação. Não bastasse o relato mais acima, há outra situação que evidencia seu jeito arisco de ser.

De quando em quando, ouço um batucar na janela, abro as cortinas e lá está ele bicando o vidro com tamanha fúria que é sempre por pouco que tudo não se estilhaça pelo chão. Essa, aliás, é uma ocorrência comum que tenho visto acontecer em outras janelas por aí e que sempre me levou a questionar por que raios o bem-te-vi não percebe que a imagem no vidro é o seu próprio reflexo e não a figura de um invasor de territórios a merecer descompostura tão violenta.

Mas, para além de ser o infalível elevador das idades, o tempo também serve para mudar o ângulo das ideias e por isso de uns tempos pra cá percebo ter sido injusto com esse pássaro que é a própria animação da bravura, esse valente que, na defesa da prole, desafia e vence um adversário três ou quatro vezes maior que ele. Pensando bem, tenho pra mim que, na verdade, o bem-te-vi se choca insistentemente contra o vidro, não por estupidez. É que sua imagem aprisionada o ofende sobremaneira.