Memorial dos espetáculos errantes


Vivi pra ver mais uma vez a lona se erguer agigantada em um terreno baldio, podia jurar tratar-se de evento já entregue ao escaninho das memórias esquecidas, ao arquivo morto dos acontecimentos irressuscitáveis. Mas eis aí o circo imerso pela pressa dos carros escandalosos, é uma teimosia só comparável à daquelas flores que brotam pelas fendas do asfalto.

Resolvo fazer uma visita fora de hora, é manhã e na manhã todas as fantasias recolhem-se adormecidas. Percorro a rua de trás para conferir a parafernália volante, vou passando em revista a fila de trailers e só num deles encontro uma janelinha que não esteja encoberta por toalhas e cortinas. Através dela vejo uma mulher que sorri para o céu, a ela imediatamente atribuo a suspeita de que seja uma bailarina dos ares. Agora se ocupa em pressionar seguidas vezes a parte de cima da garrafa térmica. Como se ordenhado, o café vai sendo despejado no copo em jatos irregulares. De repente, a mulher larga tudo e começa a ajeitar os cabelos, pretende prendê-los num rabo de cavalo. Ao mesmo tempo, lança novamente o olhar para fora da janelinha, observa fixamente um ponto qualquer, talvez registre na memória a paisagem que daqui a mais ou menos duas semanas não estará mais ao alcance de sua vista. Mais uma entre tantas.

Ouço vozes vindas de cima, vozes em galhofa. Quatro homens estão no topo da lona branca, cada um deles amarrado por cordas, não que precisassem de tanta segurança, tamanha a desenvoltura com que sobem e descem a inclinação volúvel, é que esses alpinistas destemidos estão de fato acostumados a enfrentar obstáculos ainda mais desafiadores: o perigo à espreita no globo da morte, a maneira ardilosa com que a gravidade atua durante as apresentações no trapézio, a frustração das noites de público minguado. Além de mim, outras poucas pessoas assistem à cena, os componentes do quarteto intrépido nos percebem cá embaixo e por isso começam a alternar pequenas acrobacias, amostra grátis de seus talentos. Para eles, todo público é respeitável. Que mirante incomparável! Eles avistam parte da cidade não de um edifício, não de uma torre, avistam parte da cidade do alto de uma lona de circo, a alegria que sentem é a alegria de passarinho. Daqui a mais ou menos duas semanas, terão na memória, à disposição de suas lembranças, o registro de uma visão panorâmica.

Estou a ponto de completar a volta inteira, analiso cabos, roldanas, ganchos, estacas, me interessa saber como se dá o contorno da lona. Daqui a mais ou menos duas semanas, quando a visão de um terreno baldio for devolvida ao cotidiano dos dias, quero ter na memória o lugar exato onde esteve montado o picadeiro.