Repórter do caos


Algo se agita dentro dele, quer sair, ganhar o mundo, propagar-se por grandes distâncias. O sujeito está inquieto, não dá mais conta de represar uma notícia.

– Ontem um carro capotou logo ali – ele diz apontando para a rua que passa nos fundos da padaria.

Preparado para abocanhar o pão com manteiga, o homem ao lado adia a mordida e rebate:

– Como alguém consegue capotar naquela rua?

É exatamente o que eu também me pergunto. A rua é reta, curta, estreita, de mão única, só se trafega nela a baixa velocidade. Mas ao portador da notícia não interessa debater sobre a causa e o sentido das coisas, já basta que tenha nas mãos um catálogo de comprovações.

Ele estende o celular de maneira a deixar a tela colada ao rosto do homem ao lado, que, forçando os olhos por detrás dos óculos, deixa escapar uma interjeição impublicável, e quanto mais se impressiona, maior a excitação do portador da notícia em arrastar o dedo pela tela, oferta farta de ângulos. O celular chega às mãos ansiosas da balconista, ela confere as fotos por conta própria, nova sequência de espantos. Com o cuidado com o qual se transfere um bebê de um colo ao outro, o celular é devolvido ao dono e ele me encara como se perguntasse, quer ver também? Quero sim, sou curioso, confesso, mas hesito e ao que parece não me mostro suficientemente empolgado, temos um impasse, o que me faz perder a vez, porque agora o portador da notícia se encaminha apressado para o lado de fora, vai ao encontro de uma mulher conhecida dele, nem mal se cumprimentam e a pergunta já está posta:

– Soube o que aconteceu ontem?

Ele está de volta, não desgruda os olhos esbugalhados da tela, é como se olhasse para um espelho mágico que lhe impõe reflexão. Pelo tempo em que permanece mais sossegado, faz um comentário dito em voz baixa, calma e ensimesmada, soa quase como uma advertência:

– Dizem que a pessoa foi tirada do carro com o celular na mão – uma careta de reprovação lhe domina o semblante. – Esse pessoal é fogo.   

O portador da notícia ressurge do transe num alvoroço só. Volta à carga, empunhando o celular na inadiável missão de difundir seu conteúdo. O homem ao lado prepara os óculos, ajusta o alcance dos olhos, a ele é explicada uma novidade:

– Olha o vídeo de quando os bombeiros desviraram o carro.

No prato deixado em cima do balcão, acomodado sobre a superfície forrada de guardanapos de papel, o pão com manteiga descansa ainda praticamente intacto.