O gaitista da Praça XV


Em meio a camafeus encardidos, estatuetas de porcelana, coleções de leques, canetas e moedas, capacetes do exército, vitrolas munidas de gramofones, passo em revista as barracas que entre si formam um labirinto atemporal, distrito onde o espólio do antigamente une as pontas das épocas. Uma melodia viaja pelo entorno, subitamente me alcança e interrompe meu encantamento visual. No embate travado entre os sentidos, sou o mediador que dá a vitória à audição, e é menos por vontade própria e mais por me sentir hipnotizado que vou seguindo até a fonte de onde as notas e os acordes são aspergidos, garoa sonora em dia de tempo bom.

Como se guiadas pelo feitiço do flautista de Hamelin, as pessoas são atraídas até estarem próximas à gaita que, ao feitio do lugar, recita clássicos de Lupicínio, Pixinguinha, Cartola. Na feira de antiguidades da Praça XV, uma das barracas tem a vantagem de contar com a presença sedutora de um virtuose do sopro. Do chapéu ao sapato, passando pelas calças e blusa, todas as suas vestimentas são pretas, o bigode volumoso cobre parte da boca e também parte da gaita quando a exibição está em andamento. O gaitista da Praça XV é pitoresco.

Ao final da música, o aglomerado de gente aplaude e em resposta o gaitista curva o corpo, enquanto sorri contidamente. Quem não se contém é o dono da barraca, sobe-lhe uma empolgação daquelas que não medem a qualidade do gracejo: ele toca em aniversário, casamento, aceita tocar até em velório, diz como se assumisse as vezes de empresário do gaitista, que não se deixa abater pela falta de deferência, ele mesmo também tem seus momentos de galhofa, olha para a mulher que admira um dos cachimbos à venda e diz: esse aí foi usado por Van Gogh. O gaitista da Praça XV é pitoresco e parlapatão.

Mais uma música termina, irrompem os aplausos, mas agora alguma coisa incomoda o gaitista, ele chama o dono da barraca e aponta para a roda de samba que circunda a tabacaria do outro lado da praça. Aquele cara do violão não gosta de mim, não pode me ver tocar, já dei um abraço na mulher dele, ou melhor, ela é que me abraçou, não recusei, não sabia que ela era casada, ele diz isso em voz alta, não faz questão de resguardar suas confidências, o gaitista da Praça XV é pitoresco, parlapatão e boquirroto.

O anúncio é feito com entusiasmo, é chegada a hora de ouvir Ataulfo Alves. A careta e os olhos fechados do artista querem dizer que a música já o transportou para outra dimensão, agora só o que se tem do gaitista é a sua figura exótica, todo o resto flutua por lugares insondáveis. Enquanto isso, uma rajada de vento espalha a pilha de antigas cédulas de dinheiro, uma delas, a de cem cruzados, é arrastada para longe e vai parar no chão. O dono da barraca a recolhe, confere sua integridade, encara o rosto de Juscelino Kubitschek e diz: ele não gostou do show. O comentário certamente não perturbaria o gaitista, que ainda está em estado de transe musical. É uma rejeição sem valor.

Algum tempo mais tarde, volto a passar pela barraca quando ali já não há gaitista tampouco gente aglomerada. Sou testemunha de uma conversa, alguém acaba de expressar constatação: depois que ele foi embora, todo o mundo sumiu. Resignado, o dono da barraca balança a cabeça em sinal de concordância. O gaitista da Praça XV é pitoresco, parlapatão, boquirroto e indispensável.