Recreios


Tem sido frequente que eu ladeie as grades da escola justamente no horário do recreio, encontro marcado com a algazarra. É sempre um frenesi erguido ao pico dos decibéis, confluência de gritos em timbre de entusiasmo. O som emitido pela orquestra da empolgação é mais agudo nos dias em que as meninas jogam queimada, correria de lá pra cá, de cá pra lá. Nos outros dias em que os meninos jogam futebol sob a supervisão de um professor de apito na boca, os gritos são mais graves, vozes em transição emendadas pela puberdade.

E basta observar qualquer um dos alunos para perceber o quanto de ansiedade se acumulou até tocar a sineta do intervalo. É a folga o porto consolador que justifica o esforço da viagem, e de intervalo em intervalo vamos saltando sobre poças de agruras, vamos sobrevivendo à árida paisagem das obrigações cotidianas. O menino faz um gol e no rosto dele explode uma euforia imperturbável, crisálida pronta, a alegria não se abala nem com a proximidade da sineta que decretará o fim do intervalo, isso porque a melhor das alegrias é a que está para acabar.

“Hoje vai ter prova mas no final da aula acho que tem futebol”, diz a canção da Legião Urbana, uma canção póstuma, misteriosa, cantada aos sussurros. Ode às compensações do recreio, trata-se de verso pouco badalado, mas que, para mim, carrega um profundo poder  poético muito mais tocante que qualquer “é preciso amar” ou “temos nosso próprio tempo”. É um verso que me joga aos tempos de menino, quando então comprava barras de chocolate e planejava apreciá-las só depois de passado o período das provas. Tantos anos depois, o gosto daquele chocolate, assim como as madeleines de Proust, me faz reviver experiências e então consigo reconstituir como era doce a sensação de alívio e recompensa, breve sabor de vitória. Vou cantarolando o verso da música enquanto, no mesmo horário de sempre, passo em frente à escola, mas hoje a quadra está vazia e há silêncio espalhado por todos os cantos. Os alunos estão de férias.       
Sigo padaria adentro, é um dia cheio para mim e para muita gente em volta, veja aquele homem com o cigarro entre os dedos, ele se agarra ao toco incandescente como quem está pendurado à beira de um precipício e vai sugando até o mais ínfimo pedaço daquilo que certa vez o cronista Luís Henrique Pellanda chamou de feriado portátil. Na xícara ou no copo? Na xícara, e com pires. Espero o café esfriar e o bebo com calma, aproveito cada golada e faço pose de sommelier. Depois, confiro o fundo da xícara, lama formada de açúcar e resquício de café. Acabou.