Reviravoltas de um informante


Nunca falha. Não existe método mais simples, rápido e eficiente para elevar os níveis da autoestima alheia. Pergunte a alguém sobre alguma localização, sobre como chegar a determinado lugar, e se isso for de conhecimento do seu interlocutor, perceba como os olhos da pessoa começarão a brilhar de um modo diferente, provavelmente o peito se estufará e a coluna se ajeitará para a posição ereta, pose confiante de quem domina informações privilegiadas.

Digo por mim. Pode até soar arrogante, mas a verdade é que, por alguns segundos, tenho nas mãos o poder de decidir o destino do rapaz de mochila nas costas que acaba de me perguntar onde fica o centro de apoio social. A resposta demora por duas razões, a mais nobre se refere ao cuidado de indicar a direção bem pensada, imune a extravios, já a menos nobre tem a ver com uma inclinação irresistível que me leva a saborear o controle absoluto do ato de dar as cartas, para onde quer que eu aponte, é para lá que vai, obediente, o rapaz de mochila nas costas.   

– Tá vendo aquela placa de bar? É só um pouquinho depois.

Nessas ocasiões, gosto de conferir o sucesso da minha orientação, lá vai o rapaz seguindo pelo caminho certo, mas, quando já a alguma distância de mim, ele escolhe um passante aleatório e, ora veja só!, volta a pedir informação, quer a ajuda de outrem para ter um norte e isso é o atestado da minha incompetência informativa, é a maior das desmoralizações para um orientador dos rumos urbanos, ou melhor, a maior desmoralização vem agora que o novo informante aponta o dedo para o lado contrário àquele que eu indiquei. Da glória à decadência, resta a mim o constrangimento de bater em retirada, não cai bem ficar à vista na situação em que posso ser acusado de adulterar direções.

Como nunca é fácil prosseguir sob o peso das questões mal resolvidas, dou meia volta e me ponho a percorrer a trajetória da minha orientação, vai que eu não tenha me enganado. Mais à frente, a conferência é facilitada, porque está vindo aí o próprio rapaz de mochila nas costas.

– E aí, amigo, o caminho tava certo? – pergunto hesitante.  

E é assim, enquanto não diz a resposta, o rapaz da mochila nas costas é quem dá as cartas, tem nas mãos o poder de restituir ou não minha vaidade, a vaidade dos que pensam dominar roteiros.