Sol de inverno


Quando o anunciado aquecimento global chegar de verdade e estiver em sua potência máxima, aí então o sol terá se tornado um tirano a se divertir esturricando paisagens, evaporando mares e derretendo geleiras. O pior é que será impossível olhar para o céu, e mesmo se alguém com olhos biônicos conseguir a proeza de vencer o despotismo da luz, sentirá a frustração de constatar que o firmamento terá se descolorido. Lá em cima, a brancura de tudo não será o branco dos dias nublados, será o branco perpétuo que retratará o nada.

Mas enquanto isso não acontece, meu vizinho, que não é bobo nem nada, vai aproveitando as primeiras horas da manhã fria para se banhar de sol, o sol de julho é dócil, é carinhoso feito cãozinho domesticado, e o céu desta época do ano é de um azul mais forte, tinta extraída da paleta das estações, que ao inverno reserva as tonalidades mais carregadas. É por essa razão que meu vizinho não tira os olhos lá de cima enquanto entrega o corpo à incidência do abraço solar.

Na varanda da casa, a cadeira foi instalada na perfeita posição onde possa ser alvo da inundação morna dos raios de sol, fica ali abandonada na maior parte do dia, é preciso acordar cedo para vê-la ocupada pelo senhor esguio sempre de pernas cruzadas, sempre vestido com o mesmo pulôver listrado, nunca lê jornal, nunca conversa com alguém nem nunca pratica qualquer outra atividade que lhe distraia a atenção dedicada exclusivamente ao propósito de acalorar-se. E deixar-se aquecer pelo sol de inverno não é um deleite que demore tanto. Passados uns trinta minutos e meu vizinho já devolveu à cadeira a ociosidade.  

A cerração se dissipa, abrindo caminho para a chegada do astro rei. A luz e a temperatura já estão devidamente ajustadas para o perfeito banho de sol, mas meu vizinho, que nunca foi de atrasar, está mais uma vez ausente, faz alguns dias que é esse descaso com o assíduo e reluzente visitante. Vou a campo, pesquiso, recebo más notícias, a saúde do meu vizinho não anda bem, foi internado, a idade avançada avançou até onde foi se deparar com a armadilha da debilidade. Amanhece, e na varanda, a cadeira permanentemente desocupada é a partir de agora o único ponto aquecido pela convergência dos raios de calor.   

É domingo de manhã, atmosfera fresca e silenciosa. Para chegar à feira livre, atravesso a praça e, surpresa!, lá está ele sentado num banco escolhido estrategicamente por ser destino da incidência do sol. A figura do meu vizinho tem aspecto de miragem, de imagem ressuscitada, o danado arrumou melhor maneira de tomar banho de sol, agora tem à disposição da contemplação um punhado de possibilidades. Acomodado em seu camarote luzidio, vai assistindo ao cenário em que a cidade espreguiça, pulsa, respira, e faz isso de pernas cruzadas, vestido em seu pulôver listrado, uniforme da sorte. E deixar-se aquecer pelo sol de inverno continua a ser um deleite que não demora tanto, quando retorno da feira, o banco da praça já está desocupado.

O sol demora doze horas para iluminar cada metade da terra. E apenas trinta minutos para ir esticando uma vida.