Antes fosse poda


– Ela está condenada – diz o homem paramentado com equipamentos de segurança ao mesmo tempo em que olha para o alto, rosto inundado de luz e sombra.

O quarteirão foi interditado, e as pessoas começam a se aglomerar para além dos cones alaranjados, das fitas amarelas, aquelas normalmente usadas para delimitar a cena de um crime, essas são providências necessárias à precaução e, por que não?, servem sobretudo como forma de respeito aos últimos instantes de uma moribunda.      

Ela é centenária, vem sendo testemunha de tudo quanto é mudança nesta cidade, não há exagero em dizer que o seu redor já foi cenário para o desfile de calhambeques e moças vestidas com chapéu cloche em forma de sino. Ao longo do século, tem amenizado o calor, purificado o ambiente, embelezado a paisagem, acolhido inúmeras gerações de pássaros das mais diferentes espécies, por tanto tempo de serviços prestados, não seria então o caso de lhe conceder um último pedido? Mas qual seria o último pedido de uma árvore? Um balde de água fresca que lhe regue as entranhas subterrâneas? Talvez uma lufada de vento, porque desse jeito, enraizada terra adentro, é só pelo vento que uma árvore consegue dançar.

É poda, diz uma mulher, titubeando entre o otimismo e a ilusão. Mas não é, antes fosse. Uma criança tampa os ouvidos com os dedos minúsculos, há mesmo sons cruéis de se ouvir. O barulho da motosserra rasga o ambiente e faz as pessoas balançarem a cabeça em sinal de lamento. Cada vez que os dentes metálicos dilaceram o caule, uma chuva de farelo esvoaçante flutua no ar, derradeiros goles de gás carbônico, derradeiros suspiros de oxigênio. Amarrados por cordas, lá de cima começam a descer muitos galhos e pedaços de tronco, as folhas ainda estão verdes, risonhas, serelepes, o mais difícil é saber que logo estarão ressecadas, descoloridas, desnutridas, mortas. Já não existe o todo, e as partes que restaram se acumulam numa caçamba enferrujada, nunca estamos suficientemente preparados para aceitar a inglória do fim.            

No dia seguinte, vejo que o que sobrou dela é menos que um toco. A árvore sempre esteve ali, o que alimenta a saudade é a paisagem que muda. É mais um vazio com o qual preciso me acostumar.