Desenhos de Sísifo


São desenhos enormes feitos à vista de quem quiser testemunhar a obra em progressão. O traço espesso segue em linha reta e repentinamente altera seu curso, descrevendo agora uma trajetória curvilínea, curva longa e vagarosa que dá forma a um círculo. Tem-se o panorama da figura geometricamente abstrata ou talvez seja o resultado de uma concepção cubista.

O traço espesso é retomado a partir de outro ponto. Em determinado momento, ele deixa de ser contínuo e se subdivide em outros vários traços igualmente espessos e dessa vez executados com movimentos rápidos e curtos. O sol, até então encoberto, dá as caras e despeja no ambiente raios de luz que acrescentam brilho aos desenhos, revelação impressionista.

Sucessão de curvas, parábolas, grandes alternâncias de escala, a obra alcança o estágio de maior produtividade, os desenhos vão surgindo em profusão e servem a todos os gostos, a todos os tipos de classificações, pode ser que ali convivam marcas do simbolismo, do minimalismo, do surrealismo. De qualquer forma, não é bom que os palpites se demorem, é antes recomendável que a contemplação seja bem aproveitada, porque cada desenho tem o tempo de um sonho bom, nasce, embevece e logo se apaga.  

As pessoas atravessam o saguão. Entre elas, um rapaz diminui a marcha, confere o caminho percorrido até ali e constata ser autor de um rastro, ele levanta a sola dos sapatos e imediatamente tem reação de contrair todos os músculos do rosto numa careta de nojo.

Botas brancas, uniforme da prefeitura, cabelos bem presos num coque, tem aparência de estar próxima dos sessenta, mas o vigor é de moça adolescente. Ao avistar sua obra maculada, suspira e deixa os ombros caírem. O esfregão mergulha no balde e ao retornar encharcado faz despejar um jorro de líquido cinzento. Tudo outra vez. Enquanto ela esfrega o chão, vai experimentando novas formas de desenhar.