Expertise em gentileza


Ele pousa a bandeja na mesa e em seguida deixa-se cair para trás na confiança de que a cadeira o ampare, senta-se com a brusquidão de quem quer estourar uma bexiga que lhe ocupa o assento. Não parece ser bom sinal a agitação tempestuosa dos movimentos. O descaso de cada bebericada vai acumulando no pires uma poça de desperdício, ninguém em condições normais de placidez trata sua xícara de café com tamanha negligência. Uma, duas, três mordidas no croissant e então vem a pergunta explosiva:  

– Este croissant é de que mesmo?

– Queijo Minas e orégano.

A voz que responde tem a entonação serena dos diálogos praticados em mosteiros e afins, quem a emite está vestida de avental e boina, peças folgadas que cobrem uma magreza inacreditável, dentro da qual não é possível conceber que haja espaço para acomodar todos os órgãos componentes do corpo humano. A resposta, contudo, não aplaca a impetuosidade. Ao contrário, a agrava. O prato onde jaz o croissant abocanhado é atirado em cima do balcão de vidro, imagine o quanto de barulho há nisso, todas as atenções ao redor agora estão voltadas para a cena.

– Mas esse aí não tem queijo, quero outro. É por isso que o país não vai pra frente.  

A atendente não se altera e, valendo-se de seu abundante reservatório de suavidades, explica:

– É que o queijo derreteu e ficou misturado na massa, todos estão assim, mas o senhor pode pedir alguma coisa diferente.

– Então me vê um pão de queijo mesmo.

Os braços, mãos, dedos esqueléticos manuseiam o pegador, o guardanapo, o pão de queijo, o prato, e isso é feito com o cuidado que se dedica a um almoço dominical. Nesse momento de concentração ao ofício, não há ouvidos que ouçam a pirraça ainda em curso, mas eis que alguma coisa acontece na entrega do pão de queijo, faz-se aí também uma transmissão invisível, o que existe de pesado vai se amainando aos poucos até o ponto em que, consumido todo o pão de queijo sem objeções, a aproximação junto ao balcão já não seja feita aos berros, a manifestação é um pedido de desculpas rascunhado.

– Não é nada contra você não, viu?!

A atendente não sorri, nem poderia, e também não fecha a cara, comporta-se normalmente como se nada tivesse acontecido ou provavelmente esse seja um acontecimento reiterado que leva à conformação. Não sei o que ela tem a dizer sobre por que o país não vai pra frente, mas sei bem o que ela tem a demonstrar sobre como se dão os gestos de gentileza, especialmente aqueles que vergam a virulência.