Viagem à fantasia


Do fundo do ônibus quase completamente vazio tenho o panorama de todas as fileiras de bancos e é numa delas, mais precisamente no lado esquerdo, que avisto algo insólito, orelhas enormes, tromba felpuda, cor cinzenta, olhos e sorrisos infantis. É hora de descer, percorro o corredor enquanto me equilibro entre alças e canos de ferro, passo ao lado do banco onde está sentado um velhinho que, ao perceber minha presença, me encara e começa a gargalhar, boca desfalcada de muitos dentes. Na cabeça veste um chapéu em formato de elefante, está orgulhoso por usá-lo, é dele que parece vir toda a alegria do mundo.

Quando embarquei, os três adolescentes já estavam no ônibus, dois rapazes, uma moça. A maquiagem de um dos rapazes já se desfez, sobraram apenas manchas, mas a peruca verde e o casaco arroxeado não deixam dúvida sobre ser aquela uma fantasia de Coringa, o outro rapaz fantasiou-se de Robin, há portanto aqui uma ausência notória, o que me faz concluir que o itinerário deste ônibus não passa pela Batcaverna. E se engana quem imagine que a moça esteja fantasiada de Mulher-gato, não mesmo, ela escolheu vestir-se de pijama, mangas cumpridas, calças largas, desenhos do Dumbo por toda a parte, as pantufas estão preservadas numa sacola plástica, o que dá conta de pisar o assoalho sujo do ônibus é o bom e velho tênis All Star.

Ao frescor da manhã recém-nascida, junta-se um leve aroma etílico, os três fazem um apanhado do que de melhor aconteceu na festa que ao terminar há pouco os devolveu para a realidade, cada lembrança, cada relato é motivo para a sincronia dos sorrisos. De repente, a moça abre a janela e é atingida por uma lufada de vento. Preocupados, os rapazes perguntam se ela se sente mal e ela responde que não, ao contrário, sente-se tão bem que é preciso achar espaço para deixar expandir a sensação que já não cabe nela. E os amigos continuam sorrindo, fazem troça entre si, conversam animadamente, pode ser que daqui a alguns anos os caminhos da vida os distanciem, talvez no futuro nunca mais se encontrem, nunca mais se vejam, mas durante esta viagem a amizade entre os três é nó que nada pode desatar.

Aproveitando-se que o ônibus está parado, o trocador sai com pressa e corre para longe, desaparece e isso dificulta qualquer investigação sobre a razão da escapatória. Da janela, vejo que ele agora retorna ainda mais apressado. Sapato, calça, barriga avantajada, surpreende que desenvolva tamanha velocidade. Quando próximo à janela do motorista, encerra a corrida e imita a pose que Usain Bolt costuma fazer após cada uma de suas vitórias, a fantasia lhe cai muito bem. Vasculho o redor para me certificar se mais alguém presenciou a cena, os três adolescentes estão distraídos entre eles, certamente não viram, mas há um homem sorrindo do outro lado do ônibus, nós dois trocamos gestos de cumplicidade por reconhecermos um ao outro como testemunhas privilegiadas.

É o fim da viagem para o trio de amigos. Acionam o sinal, seguem pelo corredor em direção à saída. A moça vai por último, fica para trás porque alguém sentado num dos bancos prende-lhe a atenção, simpatia recíproca. Ela então retira da cabeça o chapéu em formato de elefante e o entrega ao velhinho desdentado que aceita a oferta no ato, leva à cabeça a transmissão de toda a alegria do mundo.