Conc(s)erto do dia


Sábado à tarde no centro é uma pasmaceira, dá gosto de sentir o vento solto, vai e volta sem risco de se chocar na cara sisuda, na lataria fedendo a óleo diesel. E é só na pasmaceira e é só quando as passadas se afrouxam, sem pressa, sem destino, é só assim que ainda é possível descobrir surpresas.

À frente, a fileira de crianças mais baixas. Atrás, as mais altas. Não, não é coro de natal, nada aqui invocará flocos de neve tampouco pinheirinhos cintilantes, a cantoria tem a ver com Lulu Santos, Tim Maia, uma luz azul me guia com a firmeza e os lampejos do farol. Tudo acontece na entrada de uma galeria, túnel de lojas fechadas. A afinação, coisa apurada, merece atenção, vai juntando grupinho de gente, mãos erguendo celulares na horizontal, uma placa de propaganda cai ali do lado, alguém corre e a levanta depressa. É mais gente que chega. Entre uma canção e outra, aplausos, assobios e até pedido de bis. 

Repare aquele ali de óculos, canta olhando para cima. Aquela ali, a pequenininha da ponta, domina a letra, o tom, ela também canta com a cabeça erguida. Bendita a professora que eleva as crianças, bendito o coral que faz as pessoas darem as costas para o traçado retilíneo da avenida. A placa de propaganda cai mais uma vez e logo alguém a levanta prontamente. A vida vem em ondas como um mar num indo e vindo infinito.

Maestrina de sonhos, a professora se apresenta, explica o projeto, braço esticado apontado para os pupilos, aí vêm os aplausos, ponto vibrante no centro ermo da cidade extenuada. A professora e as crianças agradecem, se despedem, avançam galeria adentro, camarim tão estreito para acomodar a soma de tantas esperanças. Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Na calçada, a placa de propaganda volta a cair, permanece caída, ninguém a levanta.