Dança graciosa


Sei quem é ele, mas não sei se ele me reconhece, muitos rostos pela frente a quem já pediu cinco e cinquenta. A mim, já pediu várias vezes, me dá cinco e cinquenta, moço? É um mistério a estipulação do valor quebrado, por que não dois, cinco, dez? Por que faz questão dos cinquenta centavos? Curioso também nunca haver correções monetárias, nem mesmo a inflação é capaz de alterar o preço da caridade.

Certa vez se irritou comigo, dei punhado de moedas e era muito menos que cinco e cinquenta, isso é só o que eu tenho, justifiquei. Depois de contar as moedas ele fez cara feia, não sei bem se por causa do pequeno montante apurado ou por causa da mentira.

Sei quem ele é e acho que ele não me reconheceria e não reconheceria ninguém agora que se ocupa de dançar, passo pra frente, pro lado, pra trás, pro lado, pra frente, os pés delineando quadrado no chão, território só dele, é onde ele cabe, albergue da cadência compenetrada, leva muito a sério o jeito de movimentar o corpo conforme o rumo que a música dá.

Outros dançam ao redor, exibem coreografia ensaiada, alguns erram, tentam acompanhar e é sempre que vai ser essa coisa de topar por aí com gente buscando se enquadrar. E ele ali ao lado vai dançando por si mesmo, bailado aleatório. É inesperado que a música suma assim repentino, sequestro abrupto do som, problema com o equipamento, bateria esgotada, alguém comenta. O motor do corpo se desliga, dança interrompida, logo se nota a decepção no semblante dele, não quer ser devolvido a um mundo estático.

Ajustaram o equipamento, e a música ressurge feito notícia boa. Ele volta a dançar sem titubeio, a vibração do som é força que lhe incorpora. A Festa Charme ao ar livre é pra qualquer um, dança quem quiser e ele dança pelo tempo de não precisar pensar em pedir cinco e cinquenta, a graça da dança é que dançar não custa nada.