Flanador em transe


Faz do piso cama. A cabeça apagada de tanto álcool não distingue confortos. Orelhas escondidas por baixo do fone de ouvido, precaução contra a barulhada da feira livre, entorpecimento pesado, nem precisava tanto, pode ser gentileza de quem zela pelo descanso alheio e reconhece no sono a dádiva de fragmentar a vida em intervalos de escape, qualquer sono é digno de preservação também porque é ele que nos iguala em fragilidade e insignificância, mas pode ser que o fone de ouvido pertença ao próprio adormecido, apetrecho itinerante para ocasiões de apagamento.

Susto por despertar prematuramente, desnorteio de se perceber emergido num mar de gente, ele tira o fone de ouvido e o deixa enganchado no pescoço, caminha cambaleante para não sabe onde, e isso é um perigo, a avenida movimentada é logo ali, navegante à deriva seguindo direto para a queda d’água. O asfalto é terreno minado para quem a orientação de espaço é quase nula, ele o acessa, incauto, delirante, elemento intruso no corredor das pressas automotivas, aí vem o desastre, contagem regressiva para o atropelamento, mas as mãos no volante sabem muito bem girá-lo na intensidade precisa, tempo certo,  manobra perfeita, tremei piadistas, quem faz o desvio com destreza e elegância é uma motorista que dentro do carro vai balançando a cabeça negativamente enquanto segue o fluxo, ufa.

Atrasado, só agora identifica o risco, apressa os passos trôpegos e alcança o outro lado da avenida, ó trabalheira ao anjo que o guarda! Parece ter encontrado um rumo, segue para o memorial onde três mastros equidistantes elevam as bandeiras do município, do estado e do país, deita ali mesmo embaixo dos panos tremulantes, há muito ainda de entorpecimento para escoar pelo sono profundo, mas não demora e ele já está novamente de pé, talvez a cobertura cívica seja propícia a pesadelos.

Nômade frustrado, retorna ao ponto de origem, panorama de pernas e pés. Incomodado por estar desperto, altera posições numa revolta contra a insônia e é aí que se dá conta de um lapso, recorre então ao fone de ouvido, mergulha no silêncio e agora sim dorme. Sobre ele vão sendo despejados olhares de pena, de reprovação e de inveja, sim, inveja, afinal quem às vezes não se vê assaltado pela vontade de sumir?